
A cifra foi tirada a partir da gravação original (álbum de 1971)
Até a próxima!
Luis Felipe
sobre letras de música, revistinhas de cifras, tocar violão, ilustrações e outras bossas


Aí está a grande questão da pós-modernidade. A discussão em torno do gênero sempre rende. A começar pelo conceito de gênero, que é muito abrangente. Sim, gênero é o que você quiser, e ponto. Há algum lugar em que isso se define melhor? Talvez no discurso acadêmico, pois a cada vez que se usa, precisa-se, justamente, delimitar o sentido. Mas a rigor, na prática do dia a dia, serve para qualquer coisa, desde a distinção entre “masculino” e “feminino” (e nesse uso é algo aproximado, mas não exatamente, a sexo masculino e feminino, macho e fêmea, respectivamente, que são conceitos, digamos, biológicos), tipos de textos, tipos de música; mas também pode-se chamar o tipo do automóvel de gênero (scooter, utilitário, SUV, monovolume, etc). E muito mais.
Essa abrangência de sentido nos coloca a seguinte questão – que significado, afinal, podemos entender a partir do termo “gênero”? Ora, se gênero é tudo isso que foi dito no parágrafo anterior, e muito mais, eu arriscaria dizer que, em um conceito abrangente, chamamos de gênero (no meio acadêmico ou não) aquilo que deve ser diferenciado. O gênero, seja lá do que for, tem “contornos” mais ou menos precisos, não necessariamente exatos. O problema de gênero, portanto, é quando se coloca o foco nesse “contorno” impreciso, esse espaço entre uma coisa e outra, quando elas são próximas. Porque nem tudo (ou quase nada) tem contornos precisos em termos absolutos.
Há muitos exemplos. A comida que não se encaixa muito precisamente em salgado ou doce, azedo, amargo, etc. O filme que não é absolutamente nem comédia, nem drama. A música que mistura os aparentemente irreconciliáveis (heavy metal e bases eletrônicas; rock'n'roll e samba, entre outros). O relacionamento que não é nem exatamente namoro nem somente amizade. E para piorar, a gente acha tudo isso ótimo. Claro, nem todo mundo acha tudo isso ótimo, porque sempre há os puristas, que reivindicam que tudo e qualquer coisa tenha contornos exatos, precisos e absolutos, para se localizarem no mundo e, por exemplo, irem num show do estilo de música que gostam sem se sentir ludibriados. “Tu chega lá e era show de música eletrônica”, já ouvi. E qual é a função dos ditos puristas. Justamente, fazer com que entre nós, pessoas, também haja a reprodução desse problema de gênero. Porque os puristas, ao reclamarem do que não está bem definido, evidenciam essa falta de contornos, ao mesmo tempo que podem se contradizer (o sujeito pode ser purista para música, mas não para filme... e assim por diante). Nem os puristas conseguem ser algo absoluto.
Podemos diagnosticar como tendo problema de gênero tudo o que você julgar “inclassificável”. Ou aquilo que dizemos que é “tão bom que não se encaixa num rótulo”. Acho que talvez poderíamos simplesmente aceitar que nem tudo se encaixa mesmo, nem tudo precisa ser rotulado, haja paciência. Mas nós, por sermos animais de linguagem, temos por hábito, obsessão, passatempo, e etc, a necessidade de ficar dando nomes para os fenômenos todos.
Mas onde entra a tal da pós-modernidade? Da seguinte forma: há não muito tempo, nós enquanto humanidade acreditávamos que as coisas tinham sentidos absolutos e que sempre era muito fácil diferenciar todas as coisas umas das outras. Designá-las em termos absolutos. Digo que era uma “crença” porque não necessariamente era algo verdadeiro, da realidade mesmo. Acontece que podíamos ignorar as sutilezas, e talvez até oprimir o surgimento do que não fosse entendido dentro de um rótulo preciso. Mas é fato que “bem” e “mal” já foram coisas muito mais precisas. Não são mais. São coisas relativas. Por exemplo, ao se dar esmola para alguém miserável, pensa-se fazer o bem, mas ao mesmo tempo pode ser o mal, porque se cria no que recebe uma dependência. Mas nem sempre, também, pois isso não pode ser dito que funciona assim absolutamente sempre. Cada caso é um caso específico. Difícil é generalizar. E para entender como essa falta de contornos, de sentidos precisos tem a ver com nosso modus vivendi, basta olharmos para um exemplo bem prático. Antes da luz elétrica, a luz solar determinava em termos absolutos o que era dia e o que era noite. O ritmo biológico de todos os animais, inclusive os humanos, era determinado pela luz do sol. Até o bem e o mal se baseavam na oposição luz do dia e escuro da noite. Agora nem dia, nem noite, nem bem nem mal já não reinam mantendo um sentido absoluto.
Com o advento da luz elétrica, ao longo de praticamente um século e meio, estendemos o dia. Estendemos tanto que agora, em muitos lugares não há distinção entre dia e noite. E o ritmo biológico da humanidade vai mudando, acompanhando as novas formas de trabalho e subsistência, por um lado, e de culto ao belo, regozijo, lazer, etc, por outro. Se vivemos numa época em que “não se tem horário”, pode-se trabalhar de noite e dormir de dia, pode-se ir numa rave que durará o dia e a noite, pode-se subverter a ordem do dia e da noite ou mantê-la; isso também acontece com outras coisas, todas. Essa falta de contornos precisos se reflete em várias coisas na nossa existência. Por isso que é uma condição da pós-modernidade. Não é algo que alguém “inventou” para atribuir sentidos relativos aos fenômenos. É uma condição da realidade em que vivemos. Até o átomo que era, na física, o último reduto da exatidão (átomo = indivisível), já não é mais certeza. As hipóteses sugerem que no interior dos átomos se tem ora vazio, ora caos. Complicado, né!? Isso tudo é condição da era em que vivemos, mas também contradição. A contradição caracteriza muito melhor a pós-modernidade do que qualquer outra coisa. Cada vez que surge algo que se quer “sem limites”, há quem reivindique os contornos seguros, para se saber onde estamos, com o que estamos lidando. Também é uma coisa nem sempre evidente o que vou dizer, mas é que certas mudanças às vezes levam alguns anos para se configurar, talvez décadas, mas sempre levamos muito mais tempo para compreender os fenômenos. Então, o que se percebe na dita “pós-modernidade” não começou agora. São mudanças que vêm se configurando há muito tempo, muito tempo mesmo. E que quando se chega num excesso, os sentidos gritam querendo ser compreendidos. A pós-modernidade é essa histeria de sentidos gritando. Durma-se com um barulho desses...
Para brindar essa postagem que inaugura uma série no blog, em que vou falar sempre de problemas de gênero na música ou na letra de alguma canção, vou começar com uma composição genial de Carlos Lyra:
Influência do Jazz
Pobre samba meu
Foi se misturando, se modernizando, e se perdeu
E o rebolado cadê?, não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz
Quase que morreu
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
Que o samba balança de um lado pro outro
O jazz é diferente, pra frente pra trás
E o samba meio morto ficou meio torto
Influência do jazz
No afro-cubano, vai complicando
Vai pelo cano, vai
Vai entortando, vai sem descanso
Vai, sai, cai... no balanço!
Pobre samba meu
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
Pra não ser um samba com notas demais
Não ser um samba torto pra frente pra trás
Vai ter que se virar pra poder se livrar
Da influência do jazz
Nessa canção, que ele chama de “sua primeira canção de protesto”, há uma crítica, mas não exatamente um crítica, uma brincadeira talvez, e que aponta para um problema de gênero naquele estilo. A Bossa Nova, embora muito se discuta, no final da discussão sempre alguém diz – é samba. Mas, ora, samba é um pouco diferente. E a Bossa Nova surge, justamente, como um híbrido, algo que não é nem exatamente samba, nem exatamente jazz. E a canção de Lyra faz também menção a outros estilos latino-americanos que acabaram sofrendo essa influência, mas que nem por isso souberam recriar um estilo híbrido, polêmico e fantástico como a Bossa Nova. Sob o termo "afro-cubano" há uma série de ritmos caribenhos que também já namoraram com o jazz americano.
Finalizando, se na letra ele diz fazer o protesto, a música contradiz. A música tem as características rítmicas, melódicas e harmônicas da Bossa Nova, isto é, tem um sincopado (quando os tempos fortes e fracos não são seguidos à risca), melodia escalar que exige uma harmonia às vezes dissonante. Ou seja, é uma composição inteligentíssima porque faz referência à questão do hibridismo do estilo, mas que apresenta também uma contradição proposital, pois usa na música uma coisa que rejeita na letra, criando, inclusive, uma certa graça, um efeito de humor. A percepção do artista para captar algo que está acontecendo no mundo, na realidade, e que ele transforma em arte, isso é genial. Em termos absolutos!
No link a seguir, a letra, a cifra, e vídeo com o Carlos Lyra apresentando a canção: http://www.cifraclub.com.br/carlos-lyra/influencia-do-jazz/
Até a próxima!
Luis Felipe

Quero voltar às milongas do Bebeto Alves, mas dessa vez para elogiar muito o poeta e compositor Mauro Moraes. Os dois discos de Bebeto Alves, o de 1998 – Mandando Lenha; e o de 1999 – Milongamento, são inteirinhos com composições de Mauro Moraes. O compositor é o mesmo e o intérprete é também o mesmo. Mas daí alguém vai perguntar afirmando – então Milongamento deve ser mesmo um “prolongamento” do disco anterior? Bom, aí eu já não te garanto. São, a rigor, muito diferentes. Mas qual a diferença?
A diferença é justamente aquela, muito sutil, mas extremamente evidente para os violonistas, e que talvez passe despercebida para um leigo nesses assuntos – o culto à “alma” do violão. Em outras palavras, en el Mandando Lenha la guitarra platina se queda por cuenta del monstro Lúcio Yanel. No Milongamento, o violão pampeano fica a cargo do aguerrido Marcello Caminha. Percebem a diferença? Por isso eu digo, é uma diferença de estilo que o violonista imprime à música, que é mais facilmente identificável por aficcionados do violão mesmo. Quem não entende a diferença assim, só por fazer referência aos guitarristas, pode ouvir os dois discos no site oficial do Bebeto Alves www.bebetoalves.com.br, clica no link rádio, e escuta nos dois discos, de 1998 e 1999, respectivamente, o violão de Lúcio Yanel e o de Marcello Caminha.
Enfim, como eu disse, e devo me fazer cumprir, essa postagem é para falar mais do poeta do que dos intérpretes. Falemos do poeta e da sua criação.
Parabéns a Mauro Moraes, em primeiro lugar, pela contemporaneidade dos temas, a sensibilidade da poesia e, o que é mais difícil, conseguir colocar-se como um autor autêntico de uma obra consistente – num mundo que está dominado pela fé do dogma regional, por um lado, e pelo vírus da varíola do consumismo da última moda, por outro. A obra, arrisco dizer, não se ajoelha inteiramente ao culto regional, pelo contrário, debate-a no interior das próprias letras. Ela é dotada de um hibridismo muito sutil, e que por isso pode ter sido a escolha de Bebeto Alves, que sabe ler a cultura. A obra de Mauro Moraes é uma afirmação de identidade regional, mas que faz sentido em um contexto ultra-regional, nacional, mundial, e por aí afora. É aquilo que chamamos de música que desafia as linhas imaginárias que são as fronteiras nos mapas. Porque o poeta deve ir além do senso-comum, mesmo o senso-comum científico.
Mesmo nas gravações de Bebeto Alves já há um certo hibridismo. Os violões, tanto o de Yanel como de Caminha são regionais, têm aquela aparência básica da música gaúcha que teve origem nos estilos ibéricos, que sofreram influência árabe e cigana; mas eles também se viram às vezes obrigados a ultrapassar isto, a ir na dissonância impressionista, na dissonância dos acordes de jazz lento e de bossa nova. Muitos diminutos, muitas sétimas e nonas. Sétimas aumentadas, também. Toda a música, toda a musicalidade pode estar aí, nos casamentos da tradição com a pós-modernidade, do oriente com o ocidente, e do nosso humilde pago com o Brasil e o mundo. Uma complexidade artística que leva um tempo para ser ser produzida, e o resto da vida para ser compreendida.
A canção que escolhi para dizer alguma coisa é Com Cisco Nos Olhos, do Mandando Lenha (1998). Linda canção, belíssima letra. Ironia, no bom sentido, para poucos mesmo. O que se quer dizer com “com cisco nos olhos”? Homem, não chora. Gaúcho, se é mais homem, chora menos ainda. Deixa-se surpreender com um cisco nos olhos. É bem diferente do que chorar. É bem diferente de simplesmente se dizer que chora. É outra maneira de dizer, é uma inscrição em uma outra cadeia de sentidos. É, pelo uso da metáfora, mais poético dizer assim. E por ser mais uma dessas letras de peão, tosco ao mesmo tempo que emotivo, já provoca um estranhamento temático, que é figura da obra poética e literária.
Nessa canção se explora a oposição entre felicidade e tristeza (redondinha para uma análise semiótica, talvez, mas que eu não vou fazer aqui). Mas quero chamar atenção para alguns versos especificamente. Quando se diz, por exemplo, “quando escuto as notícias da minha saudade”, esse verso evoca a frase corrente “quando escuto as notícias da cidade”, mas dizendo muito, muito mais. Tem aí uma aglutinação de sentidos, e o sentido de “saudade” fica mais complexo do que o sentido corrente na língua. É saudade com um sentido poético num determinado contexto; é saudade da cidade, mas não só da cidade, é saudade da terra, do amor que ficou; saudade que comprime o tempo e espaço fazendo o violão desafinar e a corda arrebentar. Depois, “é o pecado de haver endurecido o carinho / milongueando sozinho com o mate lavado”, este verso que evoca “resmungando sozinho com o mate lavado”. E o anterior, do “carinho endurecido” é o debate sutil com os sentidos estabelecidos, é justamente esse negócio de se olhar para o imaginário sobre o gaúcho, macho, tosco, insensível, e etc e propor outra coisa. Por isso eu digo que Mauro Moraes não simplesmente se ajoelha ao dogma do culto regional. Nem tampouco o critica. Ele faz, com isso tudo, sua arte, no sentido próprio de culto ao belo. Ou seja, ele parte desse imaginário, o que é ou o que deve ser o gaúcho, e faz uma discussão, mas em nível poético e metafórico. Se é verdade que o sofrimento é universal, que é o que de mais humano há e que nos torna mais humanos, também é válido dizer que se está “com cisco nos olhos” dentro dessa cultura. Importa é como se diz regionalmente o que pode caracterizar, em essência, toda a espécie humana; este deveria ser o conceito discursivo de cultura.
A última estrofe, sim, será a “sanção cognitiva”. Depois do verso “apesar dos pesares o que mais me machuca”, na penúltima estrofe, que é uma preparação, segue-se uma enumeração de versos começados por “é...” que vão ter como últimos e derradeiros versos aqueles em que se admite chorar no retorno da alegria vinda dos outros, ou do retorno dos outros que trazem consigo a alegria para o convívio: “é não ter vergonha de chorar quando se está feliz / com a alegria dos outros voltando pra si”.
Com cisco nos olhos
Ah... escrever sobre essa música me deu até um negócio... Acho que me caiu um cisco nos olhos. Vou fechar a janela para interromper o minuano, e até a próxima.
Luis Felipe
P.S. O Mauro Moraes a que me refiro é o compositor gaúcho, não confundi-lo com seu xará, um político paranaense. Site oficial do artista: http://mauromoraes.com/

Imagine que você resolvesse discordar do tempo. Como assim, discordar do tempo? Assim. Discordar do tempo. Não estou falando de algo como “arrumar o relógio errado”, para discordar do tempo. Chegar na cara do tempo e dar uma moral... Opa, mas ninguém te disse que o tempo tem uma cara? Muito menos que o tempo conversa? Nas mitologias antigas poderia ter, o que seria o caso de Chronos, o grego, e Saturno, o romano, os deuses clássicos do tempo. Porque as mitologias já foram visões de mundo bastante levadas a sério para dar conta de explicar as coisas naturais, ou simplesmente de admitir a existência de coisas incompreensíveis em sua natureza.
Em toda a sua grandeza física, o tempo, em termos absolutos, passa; e nós fenecemos. O tempo não perdoa nada nem ninguém. Em sua dimensão metafísica e filosófica, o tempo se torna juiz e executor de diversas penas e graças, tanto para punição como para redenção, respectivamente. Há muitos ditados populares sobre o tempo, muitos deles sábios, inclusive. “O tempo tudo cura”. “O tempo mostra a verdade”. O tempo isso e o tempo aquilo. Até aquele “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” é um ditado que fala sobre o tempo, no fundo, e não sobre água e muito menos sobre pedra. Explicitando o sentido, o ditado aí diz que os efeitos da erosão são só uma questão de tempo. O tempo é tudo e tudo é uma questão de tempo.
Dividimos o tempo. Calculamos o tempo. Contamos o tempo. Em algumas situações, esperamos o tempo passar. Em outras ocasiões, torcemos para que o tempo não passe. Pouca gente sã ousaria dizer que resolveu, assim como quem diz que resolveu encarar o chefe e pedir um aumento, dizer que chamou o tempo no lero-lero, que resolveu bater um papo sério com o tempo. Coisa de louco isso seria. Mas ainda bem que temos, na herança de uma tradição que vem desde as mitologias, passando pelo ditirambo e várias outra coisas, a poesia e a canção. E exatamente aí, no fazer poético que não deve satisfação ao mundo como ele é, ou como a maioria de nós acha que ele é, que o poeta, em sua inspiração e graça, põe-se a dialogar com o tempo.
A música Resposta ao Tempo é uma composição de Cristovão Bastos com letra de Aldir Blanc. Eu só conheço essa canção cantada pela Nana Caymmi. Podem haver outras, mas isso não vem ao caso agora. Deixemos isso para outro tempo. A idéia geral dessa canção, à primeira vista, é bem essa mesma: o eu-lírico, que se apaixona e não vê o sentimento passar, tal qual faz o tempo, chama-o para confrontar-se ele, o eu-lírico, que não passa, com ele, o tempo, que passa e apaga tudo:
Resposta ao Tempo
Batidas na porta da frente, é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter o argumento
Mas fico sem jeito, calado, ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar e eu não sei
Num dia azul de verão sinto o vento
Há folhas no meu coração, é o tempo
Recordo um amor que perdi, ele ri
Diz que somos iguais, se eu notei
Pois não sabe ficar, e eu também não sei
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões, eu desperto
E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer
Claro, toda letra interessante tem, via de regra, algum aspecto intrigante que talvez nem tenha sido pensado pelo seu autor. Isso pertence a quem lê e interpreta, muitas vezes. Nesse diálogo com o tempo pode ser, em princípio, o ainda convencionado chamar o eu do poema de eu-lírico. Até alguns dos primeiros versos tudo bem. O eu-lírico é alguém que se apaixona, não deixa que o sentimento passe, ao passo que o tempo passa e apaga... apaga a memória, apaga a história, etc.
Há três momentos na música. O primeiro, em que o tempo ganha a disputa (“porque sabe passar, e eu não sei”). O segundo em que eu-lírico e tempo se igualam, pois o primeiro até perdeu um amor que recorda e, como o tempo, “não sabe ficar, e eu também não sei”. E, por fim, o terceiro momento, em que o eu-lírico dá um nó argumentativo no tempo e anuncia sua vitória por empate, mais o surrender do tempo, em relação ao fazer poético. Opa! O que eu disse?
Muito cuidado nessa hora, principalmente porque o argumento aqui é complicado, e o sentido a se produzir é frágil e delicado. Deu-se a passagem do eu-lírico, personagem que dá voz ao poema, à voz própria do poeta. A questão intrigante é, naquela estrofe que diz – “respondo que ele aprisiona, eu liberto / que ele adormece as paixões, eu desperto” – perguntamo-nos o que ou quem afinal é o “eu”? Na impossibilidade de ser poeta e eu lírico ao mesmo tempo (e isso é uma loooonga discussão), acho que é necessário anunciar simplesmente pela via interpretativa que segue que o eu-lírico cede espaço ao poeta; não necessariamente ao poeta, com endereço e CPF, mas o poeta mítico do fazer poético. E o poeta se anuncia no eu-lírico. E não é mais que o tempo seja tudo e que tudo seja uma questão de tempo, mas de linguagem. Porque o poeta constrói na linguagem. O tempo e tudo mais, o que se sente, o que se descreve, o que se supõe, tudo está na linguagem. E tudo isso pode, ou deve, virar poesia.
Senão, o que desperta as paixões mais do que a própria poesia? Não tenho dúvida disso. Não basta haver uma pessoa que nos encante e por quem nosso coração bata mais forte. O sentimento que for, uma vez que seja típico do humano, precisa ser feito em linguagem, para se tornar vivo e visível e verdadeiro. Desde a crença até a ciência, na humanidade, só existe o que é narrado, só pode existir o que pode ser narrado.
E aí, nessa Resposta ao Tempo, está a nossa suposta “superioridade” da poesia, da linguagem, em relação ao tempo. O tempo passa, a poesia fica. O que atrapalha é justamente a inconsistência da memória, sujeita ao erro humano, que desafia até a lógica do tempo e a (in)constância da linguagem, como es mejor el verso aquel que no podemos recordar...
Até a próxima!
Luis Felipe
P.S. O verso em espanhol é da canção Vete de Mi, dos compositores Homero Aldo Exposito e Virgilio Hugo Exposito, uma faixa do CD Fina Estampa, de Caetano Veloso.

Depois de alguns textos que evidenciam um certo conservadorismo patriarcalista, pela própria omissão do fato de que a música feita por homens é música feita por homens, e não toda a música, depois desses dois textos, principalmente, um em que musa vira mulher e mulher vira musa (À musa da música) e outro em que a mulher é objeto de disputa (Disputa-se uma mulher), já passamos da hora de colocar a mulher no papel de protagonista da composição musical.
As mulheres da música, se me permitem fazer uma diferenciação, são as ditas musas. Mas dessa vez quero falar das mulheres na música, isto é, as mulheres que fazem música. Há que se estabelecer, de saída, outra diferenciação entre as chamadas “divas da música”, uma designação carinhosa para as intérpretes (cantoras) e as compositoras propriamente ditas. A mulher compositora, visto essa condição patriarcal que custamos a superar, é sempre uma revolucionária.
Tivemos, sim, Chiquinha Gonzaga. Tivemos, mais tarde, Nara Leão. Temos atualmente Ana Carolina. Entre muitas outras sobre as quais não vou me estender. Mas é reconhecível que, mesmo que elas sejam muitas, quando colocadas em lado e proporcionalmente aos homens, mulheres compositoras são exceções. Por alguma razão não declarada, há muito mais homens compositores do que mulheres. Eu não sei o porquê disso e nem vou arriscar interpretações sobre tal dado da realidade. Só posso dizer que, diferente da política, onde precisa haver uma regulação para que os partidos tenham uma quantidade proporcional de mulheres e homens, a produção artística não se sujeita a esse tipo de regulação. A produção artística é o terreno da liberdade e da criação. Enfia-se nesse meio quem quer, e não há restrições assim como não há exigências.
Não estou dizendo que, por não haver restrições seja “fácil” de se entrar ou de se manter nesse meio. Eu não disse isso. São coisas bem diferentes. Mas digo que a música popular é um espaço onde qualquer um com alguma voz, um instrumento, talvez até menos que isso, pode se colocar e arriscar uma carreira.
A musa da vez, que não é musa, mas é compositora, e por ter sido compositora tornou-se musa, num certo sentido (e também cantava), a quem dedico essa postagem, é Dolores Duran.
Para os que curtem essa coisa de artista extremado que vive loucamente e morre jovem (cujos exemplares sempre citados na cultura brasileira americanizada são Janis Joplin, que morreu aos 27, Jimi Hendrix, também aos 27 e Jim Morrison, 28), Dolores Duran já foi revolucionária por se adiantar aos americanos em cerca de duas décadas nesse rito de viver intensamente para se tornar mito. Claro, antes de todos vieram os poetas românticos do século XIX, mas o assunto aqui é música. Dolores Duran morreu aos 29 anos de idade em 1959. Apesar de ter problemas de coração, fumava cerca de três carteiras de cigarro por dia e bebia, segundo Ruy Castro, em seu livro Chega de Saudade, “como se a reserva alcoólica do planeta fosse acabar no dia seguinte". E amou. E sofreu.
Dolores Duran, cujo nome era Adiléia Silva da Rocha, em sua breve passagem pelo universo que ficou conhecido como o movimento Bossa Nova na década de 1950 no Rio de Janeiro, conseguiu, apesar da origem mais ou menos humilde, com sua musicalidade e capacidade para cantar em várias línguas, impressionar o próprio diplomata e poeta Vinícius de Moraes, que acabou lhe cedendo o parceiro Tom Jobim para que ela fizesse a letra de Por Causa de Você, uma das mais lindas canções co cancioneiro jobiniano, que foi gravada em inglês por Frank Sinatra, traduzida como Don't Ever Go Away.
A parceria de Tom Jobim com Dolores Duran rendeu peças musicais preciosas. Mas como este texto se propõe a falar de música feita por mulheres, Dolores Duran é uma boa escolha e a visita de Tom, Vinícius e Frank termina aqui mesmo. Claro, poderia falar de várias outras, com Maysa, Sylvinha Telles, Nara Leão, acima citada, ih... cada uma delas mereceria não só uma postagem de um blog, mas um blog inteiro. Uma vida inteira para pesquisar a riqueza de suas obras.
Mas escolhi Dolores para começar. Acho que fiz essa escolha porque tem coisas muito marcantes em sua obra. A troca de Adileia pelo nome Dolores, por exemplo, para tornar-se conhecida como uma compositora que cantava as suas dores, que transformava em música esse quê inapreensível, esse lado intangível – e doloroso – da vida, revela um traço de genialidade poética. Isso de fazer fundir vida e obra, coisas geralmente tão separadas, é algo de quem não entendeu bem a vida na sua mediocridade cotidiana, mas viveu genialmente a poesia, viveu o drama, viveu a tragédia da existência humana.
É coisa de poeta em sentido extremado, não é o poeta hesitante que “finge que é dor a dor que deveras sente”, citando Pessoa. Não sei dizer poeticamente, mas acho que é diferente. É um poeta que se entrega e sucumbe ao excesso, que traz consigo todos os sentimentos do mundo, parafraseando Drummond (ó os homens aí de novo... tenho que ler mais poesia de mulheres, para aumentar meu repertório). Só o que eu queria dizer é que uma das maiores expoentes desse tipo de artista, na música brasileira, é Dolores Duran.
Castigo (Dolores Duran)
A7+ Bm7
A gente briga
D/E E7 C#m7
Diz tanta coisa que não quer dizer
F#m7 Bm7
Briga pensando que não vai sofrer
E7 A7+
Que não faz mal se tudo terminar
A#° Bm7 E7 C#m7
Um belo dia a gente entende que ficou sozinha
F#m7 Bm7
Vem a vontade de chorar baixinho
E7 A7+
Vem o desejo triste de voltar
A#° Bm7
Você se lembra
E7 C#m7
Foi isso mesmo que se deu comigo
F#m7 Bm7
Eu tive orgulho e tenho por castigo
E7 G/A A7
A vida inteira pra me arrepender
D#7/5- Dm7 C#m7
Se eu soubesse naquele dia o que sei agora
Cm7 Bm7
Eu não seria essa mulher que chora
E7 A7+
Eu não teria perdido você
Até a próxima!
Luis Felipe
P.S. Uma dica para quem não conhece a música e quer conhecer, é o CD Amores e Boleros 2, da intérprete Tania Alves (aquela mesma que também é atriz). A versão de Tania Alves é mais contemporânea do que a original da Dolores, mas é difícil de encontrar (minha mãe tem esse CD, hehe). Link para Dolores no youtube:http://www.youtube.com/watch?v=IreFEnvyc1o&feature=player_embedded

Lenine é genial.
É recorrente entre os apreciadores de música a ideia de que a criação é motivada por um acontecimento ou um ente (um ser). O ente, mais conhecido como musa desde os tempos das epopeias clássicas, transformou-se modernamente na figura de uma mulher. Isto é, com o tempo, as musas deixaram de ser deusas-ninfas, um artigo de mitologia, para se tornar gente de verdade. E mesmo como gente de verdade servindo de musas, ainda cabe a ressalva – podem ser reais ou imaginárias. Porque há musas, mulheres reais, que por vezes inspiraram os poetas e compositores, bem como há compositores que têm inspiração (ou tem “musa”) mas ela não é uma pessoa de carne e osso. Não é nem necessariamente uma mulher. Nem necessariamente homem, tampouco. É só pura inspiração mesmo, o que motiva a criação para compor a canção.
O ótimo João Donato, no documentário Coisa Mais Linda, do cineasta Paulo Thiago, fala que “atrás de uma boa música sempre tem uma boa mulher”, e mostra uma valsinha que compôs na infância para sua primeira paixão. Eu, compondo minhas humildes polcas, tive musas, reais ou imaginárias. Mas quando você é um músico de fim de semana, como eu, é sempre complicado explicar para uma namorada atual porque você ainda toca músicas inspiradas antigamente (que foram inspiradas por outras musas, subentende-se...). Sim, mulheres têm ciúmes disso. Porque um elemento importante do caso amoroso, ou romance, e suas variações, é a simulação de uma espécie de universo particular imaculado, um simulacro de realidade feito pelos enamorados, tanto nos gestos como nos discursos, nas coisas que dizem, que cria um efeito de exclusividade e eternidade.
Em outras palavras, para simplificar um pouco, as pessoas querem, quando vivem um romance, acreditar que “são, sempre foram e sempre serão a única, a verdadeira paixão”. É a crença no amor para a vida toda que, na lógica reencarnacionista, não começou agora e seguirá para a eternidade futura. Não divide o tempo em passado e futuro sendo, portanto, uma eternidade infinita, pois não se localiza no tempo. Isto é, não é um amor que “começa” quando as almas se encontram, mas que sempre esteve lá, e o encontro seria só uma questão de coisa que acontece mais cedo ou mais tarde. Claro, levando em conta milênios e sucessivas encarnações.
Progredindo nesse raciocínio, pode-se dizer que não sendo a musa uma figura imaginária, mas uma pessoa real, e que esta espera, no gesto do poeta, uma promessa de amor eterno, chegamos a uma outra categoria. A de pessoa homenageada na canção, esteja ela viva ou não. Isso é um pouco diferente da musa, sim, mas se confunde às vezes. A pessoa homenageada na canção, diferentemente da musa, é facilmente identificável. Só isso. Toda pessoa homenageada pode ser musa, mas nem toda musa é pessoa.
Lenine faz uma música dedicada à musa da música, que se chama Todas Elas Juntas Num Só Ser. Ele passa pelas musas de vários compositores, principalmente aquelas que tiveram nome, isto é, eram identificáveis, pelo menos na letra da música. Em que medida as musas que ele cita foram pessoas reais, isso não tem a mínima importância. O que é genial é que ele pega essa idéia da ilusão de exclusividade (“só você, canto e toco só você”) e faz isso dialogar com uma multiplicidade de musas da música.
Mais genial ainda é como ele, com uma cara-de-pau que só podem ter os grande cérebros da criação, em duas estrofes, justifica uma traição que poderia cometer ao se encontrar hipoteticamente com a musa de algum seus ídolos:
Se um dia me surgisse uma moça dessas
Que, com seus dotes e seus dons
Inspira parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons
(...)
Se me surgisse uma moça dessas
Confesso que eu talvez não resistisse
Mas, veja bem, meu bem, minha querida
Isso seria só por uma vez
Uma vez só em toda a minha vida
Ou talvez duas, mas não mais que três
Entenderam o que é genial? Se for o caso, eu desfaço a confusão antes que alguém não perceba o que estou dizendo e ainda se sinta ofendida porque estou supostamente defendendo a cretinice masculina. Como eu disse ali acima, a musa não é necessariamente uma pessoa de carne e osso. O poeta, no caso o Lenine, ao admitir que eventualmente “talvez não resistisse” às musas de outros compositores, está se referindo ao processo de criação, em que ele poderia, mesmo que raramente, “pegar emprestado”. E ao dizer que “hoje eu canto só você.../ mais que tudo e todas/ só você/ que é todas elas juntas num só ser”, ele declara sua autonomia criativa, ao mesmo tempo que se subscreve a uma longa tradição poética. Viram? Lenine é genial!
Até a próxima!
Luis Felipe.
Link para a música, cifra e vídeo: http://www.cifraclub.com.br/lenine/todas-elas-juntas-num-so-ser/

Vinte e oito anos separam Teresa da Praia de The Girl Is Mine.
A primeira canção, de 1954, é uma composição de Tom Jobim e Billy Blanco, um dueto composto para ser cantada por dois cantores “rivais”, Dick Farney e Lúcio Alves, os queridinhos da canção brasileira das décadas de 1940-50. Dos primórdios da Bossa Nova, quando o estilo não era ainda conhecido ao redor do mundo, Teresa da Praia foi uma espécie de estreia de Tom Jobim na composição (não exatamente a estreia, vejam bem), mas foi sem dúvida uma canção que alcançou uma popularidade enorme, principalmente em virtude da rivalidade fictícia entre Dick e Lúcio.
The Girl Is Mine (“the doggone girl is miiiiine”) é uma composição de Michael Jackson, que ele lançou para o mundo em 1982 dividindo os microfones com ninguém menos que Paul McCartney. Sim, aquele que é equivocadamente chamado de “ex-Beatle”. Digo equivocadamente porque é mais provável que os outros integrantes da banda que são, ou foram, ex-Paul McCartney. Questão de grandeza estelar. Voltando ao Michael, reza a lenda que seu produtor, Quincy Jones, teria sugerido que ele fizesse uma música em que dois caras disputassem uma garota, e que Michael pediu a Deus inspiração, foi dormir, e acordou no meio da noite com a música pronta na cabeça. E que ele foi imediatamente registrá-la num gravador, senão já era.
Não se pode afirmar que Quincy ou Michael tivessem conhecimento de Teresa da Praia. Também não se pode afirmar o contrário. O que se sabe, entretanto, é que quando o álbum Thriller, que incluía a faixa The Girl Is Mine, foi lançado, não só Teresa da Praia já tinha alcançado uma história de sucesso razoável mesmo fora do Brasil vinte e tantos anos antes, como algumas composições de Tom Jobim já estavam entre as mais executadas do mundo, como Garota de Ipanema e suas versões, sendo uma delas a versão em inglês, The Girl From Ipanema, dueto de Antônio Carlos Jobim, o Tom, com Francis Albert Sinatra, o Frank.
As duas canções são exatamente diferentes em tudo, exceto pelo tema – dois homens que debatem sobre “de quem” é a mulher. Nesse sentido, há algumas coincidências. Por exemplo, dois cantores ao mesmo tempo, e eles se dirigem um ao outro, e o ouvinte é “platéia por acaso” dessa conversa (e não o interlocutor, como é mais comum em canções). Muito interessante o efeito, principalmente se estamos ouvindo a canção apresentada como dueto propriamente, e mais ainda se for ao vivo. Agora imaginem o efeito no público quando são dois sujeitos que o público pensava tratar-se de inimigos de morte, e que ainda por cima desejavam a mesma mulher, e se encontram para decidir a disputa... Justamente, o que acontece numa execução como essas é uma encenação muito mais completa; Tereza da Praia e The Girl Is Mine são um tipo de letra que, muito mais do que uma pessoa falando de um assunto, reproduzem uma situação inteira de um suposto conflito - dois caras falando um com o outro para resolver quem leva a gata. Isto nos faz pensar na questão dos limites entre, por exemplo, a canção em forma de dueto e o espetáculo teatral musical. Não seria a canção desse tipo uma micro-peça? E o espetáculo musical uma música comprida? Por mim, tanto faz. Desde que seja bom, não importa o rótulo.
A rigor, vale lembrar, Teresa da Praia não é uma canção de Bossa Nova, pois ela havia sido feita para e executada por dois vozeirões e anteriormente ao começo do referido estilo musical. O LP Chega de Saudade de 1958, portanto quatro anos mais tarde, que é considerado, não sem muita discussão, o marco inicial da Bossa Nova com João Gilberto sussurrando “vai minha tristeza e diz a ela...". Mas isso é assunto (e é assunto!) para uma próxima vez.
Fiz uma transcrição integral, isto é, com as partes faladas de improviso entre as partes cantadas, da gravação original da canção brasileira. Ei-la e deleita-te:
Teresa da Praia
(Lúcio) Ô Dick!
(Dick) Fala Lúcio!
(Lúcio) Arranjei novo amor no Leblon!
(Dick) Não diga!?
(Lúcio) Que corpo bonito, que pele morena!
(Dick) Não conheço...
(Lúcio) Que amor de pequena, amar é tão bom!
(Dick) Tão bom.... Ô Lúcio!
(Lùcio) Fala, meu irmão!
(Dick) Ela tem um nariz levantado?
(Lúcio) Tem...
(Dick) Os olhos verdinhos?
(Lúcio) É mesmo?
(Dick) Bastante puxados...
(Lúcio) No duro?
(Dick) Cabelo castanho...
(Lúcio) E uma pinta do lado!
(Dick) Ela é minha Teresa da praia!
(Lúcio) Hehe, pois sim... Se ela é tua ela é minha também
(Dick) Não pode ser... O verão passou todo comigo!
(Lúcio) É... mas o inverno... pergunta com quem!
(D & L) Então vamos a Teresa na praia deixar, aos beijos do sol e abraços do mar
(Lúcio) Teresa é da praia
(Dick) Não é de ninguém
(Lúcio) Não pode ser tua...
(Dick) Nem tua também!
(D & L) Teresa é da praia... não é de ninguém!
Até a próxima!
Luis Felipe
P.S. Sei que a imagem tem falhas nas pontas. As capas das revistinhas foram para o scanner como estavam e eu não fiz qualquer correção num editor de imagem. Ou será que rasguei a ponta para criar um efeito de realidade? Se a dúvida colar, está melhor do que eu ficar com fama de relaxado...

Vitor Ramil bebeu da fonte da Jovem Guarda. O diálogo que ele estabelece, por exemplo, em sua composição Não É Céu com Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, renderia uma análise riquíssima. A análise riquíssima, que alguém aí pode ser capaz de fazer, o cifraamodaantiga vai ficar devendo. Sempre. O dever em primeiro lugar. Mas existem condições genuínas, aqui, de se apresentar análises modestas – um cara falando de música e de letras de música como numa conversa com os amigos no bar, sem rigores e preocupações maiores.
A questão da autoria é, cada vez mais, uma coisa complicada e delicada. Sobre a questão da originalidade, levaria o resto do ano para ser discutida. Não existe originalidade absoluta e ponto final. Mas por que precisaria do resto do ano para discutir se isso é intransigível? Porque entre não haver originalidade absoluta possível e as sutilezas do que se cria e parece novo, aí sim, bem nesse espaço do vácuo entre o já-existente e o que não o é ainda, reside um universo de possibilidades. Tudo parte de alguma coisa e tudo faz parte de alguma coisa. No mínimo, as questões relacionáveis ao meio onde cada obra é produzida criam limites que não permitem com que uma obra criada nesse meio seja extremamente original.
A obra sofre dessas restrições, sim, da ordem do espaço (meio) do tempo (contemporaneidade) e da cultura (o que se produz no mesmo tempo e no mesmo espaço). Também se fala muito, em música, em “influências”. Mas as influências, os músicos que um compositor ouvia ou mesmo queria imitar, não necessariamente aparecem na obra deste. Isso só vai ter importância na biografia, o que não nos interessa agora. O que aparece e pode ser sublinhado são as “referências”, explícitas ou implícitas. Não existe música, estilo musical, etc, que não remeta, em maior ou menor medida, a outras músicas, estilos musicais e etc. Até quando são diametralmente opostos, fazem referência, justamente de oposição. Os pobres dos compositores deveriam, então, estar desolados devido a essa prisão que lhes impossibilita a originalidade? Não acho. Essas “restrições” significam somente que se está fazendo parte de alguma coisa maior que já existe, e isso na verdade é consolador. É isso que possibilita qualquer produção, até as que se propõem a mudar paradigmas na história.
É nesse ponto, justamente, que se diferenciam uns compositores de outros. Porque há compositores e compositores. São mais "espertos", pode-se dizer, os autores que sabem reconhecer e fazer diferentes formas de referência ao que veio antes de si e que estes, em certa medida, re-produzem. Não importa se fazem isso conscientemente ou intuitivamente, porque isso é um caso de gênio criativo. O que importa é que há os que fazem referência à referência: eis o lugar do deleite de quem analisa, por exemplo, letras de música para além das imagens tradicionais de rima, contagem de sílaba, aliteração, entre outras. Esse é o caso desses caras aí de quem este texto está tratando.
Por uma questão de ordem cronológica, Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, evidentemente, vem muito antes. E, de certa forma, marca uma geração (um pouco anterior à minha, diga-se de passagem). Não vou falar do questionamento que se fez de música não-engajada numa época em que a palavra questionadora no seio da produção artístico-musical podia ser considerada subversiva. Quero Que Vá Tudo Pro Inferno é uma forma de alienação assumida e isso nem precisa se discutir. Mas, vejam bem, não foi uma “alienação” relacionável à vida política. É uma canção romântica e, nesse sentido, sugere uma alienação em relação a tudo mais que não a seja a musa que poderia aquecer o poeta no inverno. Esse "tudo", inclusive, está no título.
É justamente com o fato da composição de Roberto e Erasmo se tratar de uma canção romântica (e sensual!) que Vitor Ramil dialoga. Não estou dizendo que ele fez Não É Céu para “responder”, plagiar, satirizar, parodiar, arremedar ou qualquer coisa que fizesse associar explicitamente uma canção a outra. Nada disso. Essas músicas nem são em nada parecidas. Trata-se, não de uma relação ética conflituosa entre compositores, se tem alguém que pensou esse tipo de coisa, trata-se de uma referência, com marcas características encontráveis aqui e ali na letra, quiçá na própria música, o que seria mais um caso de “homenagem”. A referência é uma homenagem, mesmo quando não muito elogiosa. A relação entre essas duas letras é muito sutil, mas depois que observada com a lupa do entendimento do processo composicional (levando em conta principalmente a questão da referência aos mestres antecessores) parece evidente.
Observem, na relação de oposição ou complementaridade, nessa ordem, que existe entre se perguntar “de que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?”, e se replicar dizendo que “não, não é céu sobre nós”. E entre se dizer “quero que você me aqueça nesse inverno” e “fica comigo, me abraça que calor melhor a rua não dá”. É disso que estou falando. Que alguma coisa tem a ver.
Outra referência muito interessante, ao mesmo tempo que um tanto dissimulada, é ao próprio dito atribuído justamente a Roberto Carlos no programa Jovem Guarda da TV Record dos anos 60, a expressão que se cristalizou e se disseminou – É uma brasa, mora!
Ramil brinca com essa expressão dizendo, em sua letra - "é fogo, mora/ gente na brasa a gritar lá fora/ só nos falta Nero cantar". E mais adiante -"é fogo, mora/ deixa essa brasa lá fora/ deixa o mundo todo queimar".
Outras partes das duas letras não teriam muita relevância para se falar de referência, portanto não as citarei. Exceção feita à genial sacada em "fica comigo me abraça, que calor melhor a rua não dá", ao mesmo tempo que o mundo lá fora está incendiando. É preciso ser mais explícito quanto ao sentido possível de "calor melhor"? O calor do fogo pode ser maior, mas o calor do abraço dos amantes é, sem dúvida, melhor.
Além disso tudo que foi dito que já convenceu - pelo menos a mim - do que eu mesmo estou dizendo, a canção de Vitor Ramil explora a ideia de sensualidade também musicalmente, e não só textualmente na letra, como acontece na canção de Roberto e Erasmo. Há em Não É Céu uma batida de contrabaixo que imita batida de tambores rituais do mítico "sacrifício das virgens" na era pré-civilizada, aquele saxofone meio hipnótico num crescendo em direção ao grand finale, há um mundo queimando lá fora apocalipticamente, e isso é de uma sensualidade tal, mais do que romance de passear de mãos dadas que as músicas da Jovem Guarda sugerem. Não que isso seja problema. Essa inocência nas canções do ie-ie-ie as constitui, e mesmo isso tem exceções, de que falaremos eventualmente. Mas em Não É Céu parece haver uma sensualidade sensual, se mais que uma redundância isso possa fazer sentido. “Dia nascendo normal e a gente acorda e não costuma gritar” diz o amante que goza aos berros, mais ao final da letra de Ramil, numa interpretação (minha) cheia de segundas intenções para o sentido da letra.
E quem não conhece ainda, está esperando o que para conhecer a canção do Vitor Ramil? É um manual de sobrevivência dos amantes, no caso de o mundo amanhecer incendiando...
Até a próxima.
Luis Felipe

Bebeto Alves, lembram? Eu jamais esqueço dele. Não porque ele compôs Pegadas, talvez um pouco mais porque ele compôs Mais Uma Canção. Mas eu não me esqueço desse grande artista da música porque ele tem alguns discos primorosos de milongas. Acho que ele não deve ser muito reverenciado no meio dos tradicionalistas. Talvez eles até o escutem, mas o que eu acho estranho nessa turma é um pouco isso de excluir da vitrola do CTG os músicos que talvez transgridam os contornos exatos, absolutos e seguros do que eles consideram música gaúcha (ou música tradicionalista, mais estritamente falando). Aliás, parece que existe, entre os “entendidos”, uma discussão enorme sobre as diferenças entre música nativista, que é diferente de música tradicionalista, e que se tem pavor de “tchê music”, porque é muito alegrinha e é de alguma forma inspirada no axé music da Bahia. Mas música gaúcha, cá entre nós, não é um termo que pode de modo algum se restringir à música tradicionalista que tem o selo – essa o MTG aprova!
Eu incluo, à revelia dos patrões e dos donos dos sentidos do que é ou não gaúcho, eu incluo sob o termo “música gaúcha” também a música urbana, o samba, o hip-hop, e tudo mais que é feito nos limites geográficos do Rio Grande do Sul, talvez Santa Catarina também. Digo isso porque toda música feita por gaúchos para gaúchos (não só, mas principalmente, talvez) é música gaúcha. A música gaúcha tem o gosto da diversidade da salada cultural que é o Brasil. Onde encaixaríamos os veneráveis roqueiros do Cascavelletes e do TNT, o melhor rock gaúcho de todos os tempos? E o Nei Lisboa, o Bebeto Alves, a Cidadão Quem, o Nenhum de Nós, a Ultramen, entre tantos, tantos, inúmeros outros que não cabe enumerar aqui, senão sob o rótulo de música gaúcha? Sempre se escuta e se fala - música gaúcha urbana, pop-rock gaúcho... Enfim, tudo isso é música gaúcha.
Mas comecei esse texto para falar de uma canção que o Bebeto Alves canta, fiz esse preâmbulo todo aí em cima e não cheguei no assunto. O Bebeto Alves tem uns discos de milongas lindíssimas, que não sei se os patrões aprovam (porque o cara passeia por outros estilos, como o rock gaúcho urbano, ou é cantor de rock e passeia pelas milongas, enfim, isso não vem ao caso, apesar de ter vindo). E eu abri essa postagem para falar de uma delas – Amoroso, do CD Milongamento, de 1999. Acompanham o cantor, nas 14 faixas de pura simplicidade da terra e extrema beleza compostas por Mauro Moraes, o excelente violonista Marcello Caminha e o Clóvis “Boca” Freire, mandando muito bem também, no rabecão. Aí embaixo está a transcrição que fiz da letra (da mão do próprio compositor pode estar diferente):
Amoroso
Eu poderia falar de cavalos, de domas, galpões
de lidas vividas, de bravatas e causos
Mas resolvi falar de amor...
O amor que existe em mim
Que me alimenta e que me revigora
Nas horas de um mate nos pelegos do catre
Enquanto a lua se põe e o boi rumina o capim
Ilumina-se o pátio, as orquídeas em flor
As casuarinas do rancho...
Os recantos da dor
Quando a alma lá fora madura as amoras do teu desamor
Não vou me alongar comentando muito essa letra. Só um rápido comentário, se me permitem: ela tem um lirismo, no sentido de coisa encantadoramente poética, ao mesmo tempo que o eu-lírico se assume um tosco, um peão acostumado aos cavalos, que de repente resolve falar de amor. E o resultado dessa poesia (ou peãosia, eu hein!) com a mágica da música... ouçam! O quanto antes, porque o mundo pode acabar logo. Como ouvir a partir daqui, se o rapaz que escreve não colocou um Youtube da música ou link para download? Eis, portanto, a dica: acessem o site oficial do artista, www.bebetoalves.com.br, cliquem no link RÁDIOS e procurem pelo disco Milongamento e pela faixa Amoroso. Claro, quem fizer isso não vai deixar de passear pelo site, pelas músicas, pela história do Bebeto Alves y otras milongas más. Salve Bebeto.
Até a próxima,
Luis Felipe
Essa editora, lá pelos idos das décadas de 1970-80, publicava revistinhas com músicas cifradas. Eu tenho várias guardadas e vou colocando as capas aqui no blog aos poucos, junto com algumas poucas palavras sobre alguma coisa que eu achar pertinente dizer. Lamentavelmente, de mais ou menos uma centena de edições (não sei ao certo), eu não devo ter nem vinte. Não se trata exatamente de uma "coleção completa". Mas dá pra fazer um belo omelete desses ovos, ou uma caipirinha desses limões. Metáfora à escolha do leitor.