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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Doces damas das camélias



O que tem a ver uma música da safra romântica do Roberto Carlos, um filme de Holywood que se passa em Las Vegas com o Nicholas Cage fazendo o papel de uma alcoólatra terminal, um romance francês do século XIX escrito pelo escritor francês Alexandre Dumas Filho, e uma clássica balada da banda inglesa The Police?

Aí é que está. É difícil se falar em aspectos autobiográficos quando se analisa a obra de um artista. A rigor, a obra é a obra, e isso não tem necessariamente a ver com a vida do artista. Se há artistas que misturam? Sim, há. Mas isto está longe de ser regra, muito mais provavelmente é a exceção. Dizer, por outro lado, que eventos da vida vão ter alguma influência sobre a obra, é outra coisa. Mas quase tudo é possível.

Caso alguém ainda não tenha respondido à pergunta inicial, eu dou a resposta: essas quatro obras têm em comum o fato de que o protagonista, ou o eu-lírico, no caso das canções, apaixona-se por uma cortesã, isto é, uma prostituta. Eu li em algum lugar, e a pessoa que escreveu jurava de pé junto, que Dumas escreveu A Dama das Camélias como uma forma de testemunho autobiográfico. Não posso dizer nem que sim, nem que não. Posso dizer, isso sim, que tal obra tem elementos notórios do Romantismo, e para quem não sabe romantismo nem sempre quer dizer paixonite, namorico, etc. O Romantismo, na literatura, é o período que reúne obras em torno de um estilo mais ou menos similar, porque tiveram influência da época - a transição do feudalismo para o capitalismo - e que daí se dizia que a cidade era degradante e o campo edificante. Uma série de coisas marcaram cerca de dois séculos do Romantismo na Europa: o êxodo rural e a formação das metrópoles, a decadência de monarquias e a ascensão da burguesia, e principalmente uma sensação de deslocamento que estava apenas começando.

O protagonista de A Dama das Camélias, Armand Duval, justamente, vai para a cidade – Paris - e conhece a cortesã Marguerite Gautier, por quem se apaixona. O romance (de amor) dentro da obra romântica (do período) existe, sim. Mas não é necessariamente mais nem menos romântico, no sentido mais popular do termo, do que outros períodos de outros estilos literários. Simplesmente, pelo conjunto de obras que se analisa se poderá dizer que, de modo mais ou menos predominante, em determinada época, na visão daqueles autores, casava-se mais por conveniência social do que por amor, ou vice-versa. Jane Austen, por exemplo, autora e alcoviteira da Inglaterra pré-capitalista, mostra em suas obras que os casamentos eram arranjados para servir à conveniência tanto da noiva quanto do noivo. E mesmo assim tem amor de sobra na obra da obra de Jane Austen, para quem quiser se divertir e se encantar com obras literárias que têm romance (de amor) sem ser românticas (do período).

Também posso dizer que A Dama das Camélias é uma obra que vale a pena ser lida. A ópera La Traviata de Giuseppe Verdi é uma releitura da obra de Dumas, o que só comprova seu impacto como uma narrativa fundamental na cultura literária (e musical, a partir da ópera). Mas também vale a pena ler, antes, Manon Lescaut de Abade Prévost (que também virou uma ópera, homônima, composta por Giacomo Puccini) e que, ao que parece, fez começar essa tradição das narrativas de alguém que se apaixona por uma mulher de conduta suspeita, que culminou com a polêmica e genial obra-prima de Gustave Flaubert, o romance Madame Bovary, cuja heroína e protagonista é uma mulher à frente de seu tempo que não pode ser comparada às outras, e que acabou virando filme muitos anos mais tarde. E dessa tradição, que provavelmente tem muito mais obras, eu aponto quatro que são da maior relevância: o próprio A Dama das Camélias, romance de Alexandre Dumas Filho; Leaving Las Vegas, filme com Nicholas Cage e Elizabeth Shue, dirigido por Mike Figgis e baseado num romance de John O'Brien (também acusado de fazer obra autobiográfica); Falando Sério, canção eternizada na voz Roberto Carlos e composta por Maurício Duboc; e Roxanne, canção da banda The Police.

O filme de Figgis é o máximo. O máximo em se falando de um amor ultra-romântico. O personagem de Nicholas Cage é um roteirista de cinema alcoólatra que, depois de ser despedido por não conseguir mais dar conta do trabalho em virtude do vício, decide ir para Las Vegas para se despedir da vida bebendo (e por isso o título é Despedida em Las Vegas). Nisso, ele acaba “esbarrando” na prostituta que é a personagem vivida pela bela Elizabeth Shue. Como ela é uma pessoa sem amor-próprio, e por isso é prostituta, na tese do filme, e ele também não tem amor-próprio, e por isso é escritor, digo, alcoólatra, suas duas almas inúteis e perdidas acabam se encontrando uma a outra. Eu encontrei o trailer no Youtube (vi o filme umas duas vezes há uns vinte anos) e achei que, pelo teaser, parece um filme leve e divertido. Mas o trailer engana, trata-se de um filme denso, de um relacionamento quase impossível e de um amor dolorido, em todos os sentidos.

As canções, diferentemente do romance e do filme, são construções bastante mais modestas, em termos de narrativa. Mas aí que é bom – a letra de música, como a poesia em geral, deve ser concisa e breve, trazer uma grande dimensão narrativa, se for o caso, na ligeireza de uma enunciação, num sopro de fala. Nas duas canções, coincidentemente, o eu-lírico dirige-se à mulher da (sua) vida. Em Roxanne não há dúvidas quanto a essa interpretação que diz que a mulher é, como se diz, da vida fácil. Canta-se “you don't have to sell your body through the night (...) you don't have to walk the streets for money”. Claro, a menos que se pense que vender o corpo pela noite e caminhar nas ruas por dinheiro seja outra coisa. Em Falando Sério essa questão da amada e interlocutora do poeta ser uma garota de programa é quase sutilmente sugerida na estrofe em que se canta “falando sério / eu não queria ter você por um programa / e apenas ser mais um em sua cama / por uma noite apenas e nada mais”.

Aliás, o apaixonado por Roxanne, pelo que se diz na letra, parece já ter tido progressos em “reabilitar” a moça, quando diz “those days are over”. Mas ele tem que voltar a lembrá-la de que ela não precisa vestir o vestido vermelho, usar a maquiagem pesada e compartilhar seu corpo com os habitués de determinados arredores de Westminster at night, porque parece que ela gosta de se dedicar ao trabalho. A letra de Roxanne é um choramingo dele nesse sentido; ele diz “you don't have to put on the red light” que é uma frase ambígua, mas que não salva a reputação dela de forma alguma.

E se, por um lado, em Roxanne, o poeta apaixonou-se antes, imprecisamente, mas no passado (“I've loved you since I knew you”); por outro, em Falando Sério o eu-lírico parece estar se apaixonando naquele momento. Canta-se “por uma noite apenas e nada mais”. Perguntamos – é a primeira noite dele com ela? A última? Não necessariamente. Falando Sério é uma narrativa um pouco mais complexa e menos clara do que Roxanne; em alguns momentos da letra parece haver uma rotina de encontros (“é bem melhor você parar com essas coisas / de olhar pra mim com olhos de promessas”) e em outros, o eu lírico parece apegar-se ao momento desse encontro como se fosse a única vez (entre nós dois tinha que haver mais sentimento / não quero seu amor por um momento / e ter a vida inteira para me arrepender).

Ah, eu já ia esquecendo de outro filme que tem mais ou menos uma história parecida: Uma Linda Mulher, com Julia Roberts e Richar Gere. Nãããão, melhor seria nem ter lembrado mesmo. A diferença? Uma Linda Mulher é inspirado numa fábula como Cinderela, é um mamão-com-açúcar perto de Despedida em Las Vegas e das outras histórias: não é uma narrativa densa feita de Romantismo e realidade!


Os links:

Falando sério
http://letras.terra.com.br/roberto-carlos/77139/

Roxanne
http://letras.terra.com.br/the-police/31174/

Até a próxima!

Luis Felipe

sábado, 25 de dezembro de 2010

Adoráveis cafajestes

Dizem por aí que mulheres adoram cafajestes. Eu não sei se é verdade ou não porque não sou nem mulher nem cafajeste. Pelo menos não completamente, se é que me entendem. Acho que já fui (cafajeste, quem nunca foi alguma vez?), mas não vem ao caso. E também existe mulher cafajeste. Mas a questão aqui é outra, ou pelo contrário, a mesma; a que predomina no blog – letra de música. E letra de música em que o eu-lírico se assume cafajeste tem de dois tipos básicos: as mais explícitas e as muito sutis. Tomemos, por exemplo, Disritmia, do Martinho da Vila; é explicitamente uma manifestação poética em que o poeta é um cafajeste assumido. No refrão, ele diz “vem logo, vem curar teu nego / que chegou de porre lá da boemia”. Cara de pau! Mas é uma cara de pau necessária. Vejam que letra, que “recantada”:

Disritmia


Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia pra fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos

Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração que é tão vagabundo
Me deixe te trazer um dengo
Pra num cafuné fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas desses olhos lindos

Me deixe hipnotizado
Pra acabar de vez com essa disritmia

Vem logo, vem curar seu nego
Que chegou de porre lá da boemia


E a mulher pensa “é cafajeste, mas é poeta”! Pior são as que cedem aos encantos dos cafajestes (quais encantos?) que nem poetas são e nem têm nada de especial para oferecer. Em Disritmia o poeta chega com aquele palavreado fantástico que, se não estou errado, fala ao universo feminino, e fala no ouvidinho que se escuta pelo coração sensível, e ele passa de sem-vergonha e canalha a sujeito frágil e sensível (“quero me esconder debaixo / dessa sua saia pra fugir do mundo”). Tadinho, tão frágil e tão sensível que foge da tarefa de enfrentar a sua natureza cafajeste. E a mulher compreende. E perdoa.

Tem duas canções, além dessa acima, em que o atestado de eu-lírico cafa é dado mais sutilmente, mas de modo igualmente poético ou mais. Até pode haver outras, mas eu vou nessas agora. O eu-lírico não precisa dizer “voltei de porre da boemia” tão diretamente. E o que será que rolou nesse porre? Na canção O Portão, do Roberto Carlos, fala um cafajeste que se ausentou por bastante tempo. Foi, talvez, viver a promessa de um outro amor:


O Portão

Eu cheguei em frente ao portão
Meu cachorro me sorriu latindo
Minhas malas coloquei no chão
Eu voltei

Tudo estava igual como era antes
Quase nada se modificou
Acho que só eu mesmo mudei
E voltei

Eu voltei agora pra ficar
Porque aqui, aqui é meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei
Eu voltei

Fui abrindo a porta devagar
Mas deixei a luz entrar primeiro
Todo meu passado iluminei
E entrei

Meu retrato ainda na parede
Meio amarelado pelo tempo
Como a perguntar por onde andei
E eu falei

Onde andei não deu para ficar
Porque aqui, aqui é meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei
Eu voltei

Sem saber depois de tanto tempo
Se havia alguém a minha espera
Passos indecisos caminhei
E parei

Quando vi que dois braços abertos
Me abraçaram como antigamente
Tanto quis dizer e não falei
E chorei


Claro que pode aparecer alguém para dizer que a biografia do Roberto Carlos não necessariamente justifica essa interpretação, e que no caso dele essa música pode até ter a ver com a relação entre ele e os pais, no capítulo do retorno à casa dos pais. Mas eu não estou falando dos autores e muito menos das vidas deles. Estou falando, isso sim, do que pode ser interpretado a partir das letras, e para tanto eu me refiro ao poeta ou ao eu-lírico, jamais ao autor (e poeta nem sempre quer dizer a mesma coisa que o autor).

Então, neste sentido, a mesma coisa que vale para Disritmia vale para esta última; só que em O Portão o poeta passou muito mais tempo longe, o suficiente para o retrato na parede amarelar, e não foi somente uma noitada. Ah, obviamente, e mesmo que todo mundo tenha percebido eu ainda posso mencionar; em Disritmia o poeta dirige-se à mulher; em O Portão o poeta conta a história do seu retorno. Mas tudo bem, eu admito que há uma diferença maior ainda: na canção do Roberto nos fica a dúvida se é uma letra de cafajeste ou não.

A melhor evidência é “dois braços abertos”, que sugere que sejam de uma pessoa somente, e de uma mulher, infere-se. A menos que esteja subentendido que “dois” sejam dois pares de braços, aumentando o número de braços para quatro, e há quem argumente que não seria preciso dizer “dois braços” para dizer um par de braços porque isso é o que se espera numa pessoa nascida sem problemas anatômicos, e que o “dois” tenha um valor significativo combinado com um termo que está elíptico (os dois pares), para justificar a interpretação de retorno à casa dos pais. Mas, eu hein... Que discussão sem futuro. É letra de canalha e pronto, e que resolveu voltar para a mulher depois de uma longa aventura fora. Inclusive, no verso "meu retrato ainda na parede", há uma pista a favor do meu argumento. Não se imagina que os pais tirariam das paredes ou das estantes da casa os retratos de um filho desgarrado; uma mulher magoada pelo homem que a abandonou, sim. Tudo isso está sendo dito pelo "ainda".

A outra canção de que quero falar é a mais discreta das três. Curiosamente, ela tem elementos das duas músicas acima. Outra curiosidade é que há quem não aceitaria de forma alguma o argumento de que é uma letra de cafajeste porque o autor, Lô Borges, é um pacato bom menino mineiro. Novamente há que se excluir o autor, pois não falamos dele. Estou falando daquela belíssima canção, Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, que tem um progressão (ou regressão) harmônica cheia de cromatismos nos bordões. Tá, é uma progressão num cromatismo descendente, e é isso que provoca um efeito musical de melancolia nessa canção. Mas introduzo o argumento da letra de cafajeste fazendo relação com trechos das anteriores. Quando se diz, nos primeiros versos de Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, “cheguei a tempo de te ver acordar / eu vim correndo à frente do sol”, isso significa passar pelo menos a noite fora, como no refrão de Disritmia, apenas dito um pouco mais metaforicamente.

Há uma coincidência também entre Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor e O Portão, em um trecho importantíssimo das letras, em que o poeta-cafa, antes de entrar, para e pensa no que vai dizer, e se vale a pena: Em O Portão se diz: “fui abrindo a porta devagar / mas deixei a luz entrar primeiro / todo o meu passado iluminei / e entrei”. E iluminar o passado é conferir-lhe brilho; isto é, se o passado se ilumina nesse instante de derradeira hesitação é porque vale mesmo a pena voltar. Em Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, diz o poeta: “abri a porta e antes de entrar / revi a vida inteira / pensei em tudo que é possível falar / que sirva apenas para nós dois”. É aí, nesse “que sirva apenas para nós dois” que ele se entrega ao meu argumento. Porque o que “serve apenas” é exceção, nunca regra. E se a regra é a fidelidade monogâmica e um jamais deixar o outro; então o poeta cafajeste vai argumentar que, especificamente, há de se considerar uma exceção para ele.

Qual a exceção? Tcharã! Há coisas que a simples moral não compreende, e por isso ele diz “pensar além do bem do mal”, porque um marinheiro (será?), que eventualmente pode ceder a “desejos de cais”, pelos portos por que passa, pode argumentar que essa dura realidade ("o mundo lá sempre a rodar / em cima dele tudo vale") não precisa afetar o sagrado universo do casamento:

Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do sol
Abri a porta e antes de entrar
Revi a vida inteira

Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem, desejos de cais
Pequenos fragmentos de luz

Falar da cor dos temporais,
de céu azul das flores de abril
Pensar além do bem do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu

O mundo lá sempre a rodar
Em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer

Pensei no tempo, e era tempo demais
Você olhou sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça

Eu simplesmente não consigo parar
La fora o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O Ribeirão em braço de mar

Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você

O mundo lá sempre a rodar
Em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer o sonho acontecer


Depois que o poeta argumenta tudo aquilo, portanto, a amada acena um beijo de paz. Não quer briga, talvez sinta saudades ou tenha outros desejos. E assim a situação vira completamente a favor do cafa. Ele, que chega pouco antes do sol nascer - cheio de explicações - é que acaba por ter o poder de satisfazê-la. Talvez ela até queira que ele dê satisfações depois. E todo mundo sabe, satisfazer e dar satisfações são coisas completamente diferentes. Mas agora, com algum gesto, um aceno, ela “vira a cabeça” dele porque quer dele primeiro a satisfação mais primitiva. Que trunfo na mão!

Trunfo porque dependendo que ele disser ou fizer agora, ou põe tudo a perder ou ganha o céu. E a partir daquela sentença condicional vagamente suspeita de ser uma metáfora sensual (“se você quiser transformar / o Ribeirão em braço de mar”) ele faz a “recantada”, dizendo as palavras mais doces e românticas que a mulher já ouviu: “você vai ter que encontrar / aonde nasce a fonte do ser / e perceber meu coração / bater mais forte só por você”. E tudo está salvo...

Porque um homem, digamos, “normal”, conquista a mulher uma vez e quer tê-la como sua pela vida inteira, e não acha que corre o risco de perdê-la porque ele é, em tese, o melhor “produto” para um relacionamento – o homem certinho, direito, fiel. O cafajeste, por outro lado, sempre na corda bamba, precisa reconquistar a mulher constantemente, pois mesmo que ela não saiba de nada, as culpas o atormentam. E talvez seja por isso que as mulheres, caso isso se aplique a alguém de verdade, acabam preferindo os cafajestes. É que elas adoram as “recantadas”, e quanto mais poéticas, melhor.


Até a próxima!

Luis Felipe



Links para as canções no Youtube:

Disritmia:

http://www.youtube.com/watch?v=MF4UsW4--sM&feature=fvst

O Portão:

http://www.youtube.com/watch?v=zbOuI5hv2yo

Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor:

http://www.youtube.com/watch?v=1BGxHfV7TWw&feature=player_embedded


P.S. O moço do retrato, para quem não sabe, é o ator Clark Gable, do clássico norte-americano O Tempo e o Vento. O seu bigode ficou conhecido como “bigodinho de cafajeste”, por alguma razão.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

É fogo, mora!?

Vitor Ramil bebeu da fonte da Jovem Guarda. O diálogo que ele estabelece, por exemplo, em sua composição Não É Céu com Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, renderia uma análise riquíssima. A análise riquíssima, que alguém aí pode ser capaz de fazer, o cifraamodaantiga vai ficar devendo. Sempre. O dever em primeiro lugar. Mas existem condições genuínas, aqui, de se apresentar análises modestas – um cara falando de música e de letras de música como numa conversa com os amigos no bar, sem rigores e preocupações maiores.

A questão da autoria é, cada vez mais, uma coisa complicada e delicada. Sobre a questão da originalidade, levaria o resto do ano para ser discutida. Não existe originalidade absoluta e ponto final. Mas por que precisaria do resto do ano para discutir se isso é intransigível? Porque entre não haver originalidade absoluta possível e as sutilezas do que se cria e parece novo, aí sim, bem nesse espaço do vácuo entre o já-existente e o que não o é ainda, reside um universo de possibilidades. Tudo parte de alguma coisa e tudo faz parte de alguma coisa. No mínimo, as questões relacionáveis ao meio onde cada obra é produzida criam limites que não permitem com que uma obra criada nesse meio seja extremamente original.

A obra sofre dessas restrições, sim, da ordem do espaço (meio) do tempo (contemporaneidade) e da cultura (o que se produz no mesmo tempo e no mesmo espaço). Também se fala muito, em música, em “influências”. Mas as influências, os músicos que um compositor ouvia ou mesmo queria imitar, não necessariamente aparecem na obra deste. Isso só vai ter importância na biografia, o que não nos interessa agora. O que aparece e pode ser sublinhado são as “referências”, explícitas ou implícitas. Não existe música, estilo musical, etc, que não remeta, em maior ou menor medida, a outras músicas, estilos musicais e etc. Até quando são diametralmente opostos, fazem referência, justamente de oposição. Os pobres dos compositores deveriam, então, estar desolados devido a essa prisão que lhes impossibilita a originalidade? Não acho. Essas “restrições” significam somente que se está fazendo parte de alguma coisa maior que já existe, e isso na verdade é consolador. É isso que possibilita qualquer produção, até as que se propõem a mudar paradigmas na história.

É nesse ponto, justamente, que se diferenciam uns compositores de outros. Porque há compositores e compositores. São mais "espertos", pode-se dizer, os autores que sabem reconhecer e fazer diferentes formas de referência ao que veio antes de si e que estes, em certa medida, re-produzem. Não importa se fazem isso conscientemente ou intuitivamente, porque isso é um caso de gênio criativo. O que importa é que há os que fazem referência à referência: eis o lugar do deleite de quem analisa, por exemplo, letras de música para além das imagens tradicionais de rima, contagem de sílaba, aliteração, entre outras. Esse é o caso desses caras aí de quem este texto está tratando.

Por uma questão de ordem cronológica, Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, evidentemente, vem muito antes. E, de certa forma, marca uma geração (um pouco anterior à minha, diga-se de passagem). Não vou falar do questionamento que se fez de música não-engajada numa época em que a palavra questionadora no seio da produção artístico-musical podia ser considerada subversiva. Quero Que Vá Tudo Pro Inferno é uma forma de alienação assumida e isso nem precisa se discutir. Mas, vejam bem, não foi uma “alienação” relacionável à vida política. É uma canção romântica e, nesse sentido, sugere uma alienação em relação a tudo mais que não a seja a musa que poderia aquecer o poeta no inverno. Esse "tudo", inclusive, está no título.

É justamente com o fato da composição de Roberto e Erasmo se tratar de uma canção romântica (e sensual!) que Vitor Ramil dialoga. Não estou dizendo que ele fez Não É Céu para “responder”, plagiar, satirizar, parodiar, arremedar ou qualquer coisa que fizesse associar explicitamente uma canção a outra. Nada disso. Essas músicas nem são em nada parecidas. Trata-se, não de uma relação ética conflituosa entre compositores, se tem alguém que pensou esse tipo de coisa, trata-se de uma referência, com marcas características encontráveis aqui e ali na letra, quiçá na própria música, o que seria mais um caso de “homenagem”. A referência é uma homenagem, mesmo quando não muito elogiosa. A relação entre essas duas letras é muito sutil, mas depois que observada com a lupa do entendimento do processo composicional (levando em conta principalmente a questão da referência aos mestres antecessores) parece evidente.

Observem, na relação de oposição ou complementaridade, nessa ordem, que existe entre se perguntar “de que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?”, e se replicar dizendo que “não, não é céu sobre nós”. E entre se dizer “quero que você me aqueça nesse inverno” e “fica comigo, me abraça que calor melhor a rua não dá”. É disso que estou falando. Que alguma coisa tem a ver.

Outra referência muito interessante, ao mesmo tempo que um tanto dissimulada, é ao próprio dito atribuído justamente a Roberto Carlos no programa Jovem Guarda da TV Record dos anos 60, a expressão que se cristalizou e se disseminou – É uma brasa, mora!

Ramil brinca com essa expressão dizendo, em sua letra - "é fogo, mora/ gente na brasa a gritar lá fora/ só nos falta Nero cantar". E mais adiante -"é fogo, mora/ deixa essa brasa lá fora/ deixa o mundo todo queimar".

Outras partes das duas letras não teriam muita relevância para se falar de referência, portanto não as citarei. Exceção feita à genial sacada em "fica comigo me abraça, que calor melhor a rua não dá", ao mesmo tempo que o mundo lá fora está incendiando. É preciso ser mais explícito quanto ao sentido possível de "calor melhor"? O calor do fogo pode ser maior, mas o calor do abraço dos amantes é, sem dúvida, melhor.

Além disso tudo que foi dito que já convenceu - pelo menos a mim - do que eu mesmo estou dizendo, a canção de Vitor Ramil explora a ideia de sensualidade também musicalmente, e não só textualmente na letra, como acontece na canção de Roberto e Erasmo. Há em Não É Céu uma batida de contrabaixo que imita batida de tambores rituais do mítico "sacrifício das virgens" na era pré-civilizada, aquele saxofone meio hipnótico num crescendo em direção ao grand finale, há um mundo queimando lá fora apocalipticamente, e isso é de uma sensualidade tal, mais do que romance de passear de mãos dadas que as músicas da Jovem Guarda sugerem. Não que isso seja problema. Essa inocência nas canções do ie-ie-ie as constitui, e mesmo isso tem exceções, de que falaremos eventualmente. Mas em Não É Céu parece haver uma sensualidade sensual, se mais que uma redundância isso possa fazer sentido. “Dia nascendo normal e a gente acorda e não costuma gritar” diz o amante que goza aos berros, mais ao final da letra de Ramil, numa interpretação (minha) cheia de segundas intenções para o sentido da letra.

E quem não conhece ainda, está esperando o que para conhecer a canção do Vitor Ramil? É um manual de sobrevivência dos amantes, no caso de o mundo amanhecer incendiando...

Até a próxima.

Luis Felipe