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Mostrando postagens com marcador Cristiano Teles. Mostrar todas as postagens
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domingo, 2 de janeiro de 2011

Digo com todas as letras: roupa suja se lava no blog!

Bom, comecemos assim... Primeiro eu disse, numa postagem anterior, que não falaria de Chico Buarque, ever! Mas daí fui baixamente chantageado. Um amigo me ofereceu para publicar, com exclusividade aqui no cifraamodaantiga (pelo menos a exclusividade de ser o primeiro a publicar), uma caricatura feita por ele do Chico.

Claro, muitos podem pensar que é feio lavar roupa suja nos blogs, mas enfim. Foi baixaria mesmo. Porque eu sempre peço que ele faça umas ilustrações para as minhas postagens e elas nunca vem, então eu sempre coloco uns vídeos idiotas do Youtube, ou umas imagens cretinas catadas no Google, umas capas de umas revistinhas de cifras cheirando a mofo... Mas eu cedi à chantagem. Faço qualquer coisa por uma ilustração exclusiva para o blog. Mesmo que seja do Chico e que eu tenha que ir contra os meus princípios de não querer chover no molhado. Principalmente porque não sou muito criativo.

Eu tinha dito que me recusava a falar de Chico Buarque porque, provavelmente, já se disse tudo sobre ele. E também já se falou tudo e mais um pouco sobre a sua obra que, segundo creio, é o mais relevante de sua vida. Mas ao mesmo tempo eu disse, naquela mesma postagem, que saber sobre vida e obra de Chico contava pontos na tabela geral do flerte. Mostrar-se conhecedor de Chico conta pontos altíssimos. E se na noite da boemia o sujeito tirar um violão da manga e tocar Todo o Sentimento, bom... Segundo me disse meu amigo, lançando mão dessa estratégia, “Chico torna viáveis até os amores inviáveis”. Ele deve saber do que está falando.

Mas já que eu cedi a tão caro suborno, e comecei 2011 fazendo tudo errado, sendo completamente inescrupuloso com a obra alheia, vou chutar o balde mais ainda: vou colocar uma letra de uma música que eu mesmo compus há uns dois anos e que, depois de concluído o processo criativo e criado o produto, acabou virando, de certa forma, uma homenagem a Chico Buarque, e que também me recuso a comentar. Só digo que já que o Chico compôs os maiores clássicos com o tema separação (Trocando em Miúdos, Atrás da Porta, Gota d'Água, Eu Te Amo, trechos de João e Maria, entre outras), e considerando que o artista geralmente não canta a própria vida e que outro pode narrá-la; arrisquei-me, portanto, a tal heresia.

Confiram aí a letra, que já está musicada, e quando eu me dignar a fazer uma gravação decente, posso vir a publicar pelo blog! As aparentes referências a pessoas reais não tem necessariamente relação com a realidade (são quase que uma mera coincidência, um acidente no meio da criação poética). Tanto que o nome “Marieta” foi uma das últimas coisas a entrar nessa letra, cujo título Todas as Letras, estava definido desde o segundo verso. E “Marieta”, que não tinha sido pensada inicialmente, rimava mais ou menos com “todas as letras” na última estrofe, então... Tudo pelo bem da construção poética. Longe de mim querer falar de uma das separações mais comentadas de um dos nossos maiores artistas. Longe de mim querer cantar uma dor de verdade, uma dor de vidas vividas.


Todas as letras


vou te mostrar
com quantas letras se diz
não venha bancar a atriz
com a nossa situação
olha pra cá, por favor

me escuta com atenção
eu não me sinto feliz
suplicando teu perdão
por algo que eu não fiz
mas virou obsessão

enfim, eu quero dizer
que o nosso amor acabou
quem é que não percebeu?
e se o errado fui eu
você foi quem provocou

pois quando havia uma chance
de acender o romance
você me abandonou
e nem sequer me escutou
achando que era melhor...

...depois
tentou voltar mas não deu
o desencanto cresceu
você jamais mereceu
essa coisa de nós dois

escuta aqui, Marieta
digo com todas as letras
meu jeito manso se foi
e teu amor já não dói mais
em mim

Até a próxima!

Luis Felipe


[Cristiano, obrigado pela caricatura! Abraço, irmão.]

sábado, 20 de novembro de 2010

O que é o samba?

Em Samba A Dois (Marcelo Camello, Los Hermanos), canção da qual já falei aqui brevemente, propõe-se a pergunta “quem se atreve a me dizer do que é feito samba?” A pergunta é pertinente, sim, mas curiosamente a ordem pergunta-resposta nesse grande diálogo que é a tradição do samba não é necessariamente linear nem cronológica. O tempo não existe só cronologicamente e os sentidos estão aí no mundo, tanto que pode existir uma resposta na realidade para uma pergunta que ainda não foi feita. Responder a uma pergunta de tal natureza é apenas tornar evidente uma resposta que talvez já “existisse” antes mesmo de ser verbalizada. E quem responde à questão de Samba A Dois é, na verdade, uma tradição longa de sambistas, a maioria antes da própria pergunta ter sido feita.

Claro, há de se fazer referência ao fato de que a banda Los Hermanos não é um conjunto de samba, mas uma banda de rock, digamos assim, e que reuniu diferentes influências e estilos compondo, bem dizendo, canções híbridas. Nesse sentido, a pergunta “quem se atreve a me me dizer do que é feito o samba?” pode ser entendida como um desafio, tipo “estarei ousando dentro do samba, que não é nem o meu estilo, então quero ver quem é capaz de me dizer que não é samba”. Mas o que estou propondo é deixar essa interpretação de lado, pelo menos por enquanto, e inscrever a pergunta feita em Samba A Dois na tradição que define o samba, justamente porque ela dialoga com as respostas que existem em letras de sambas tradicionais. Tanto a ideia da pergunta como desafio quando a ideia da pergunta dialogando com a tradição coexistem, mas nos ocuparemos primeiro com a primeira possibilidade interpretativa.

Posso dizer, com pouca chance de estar errando muito, que há uma tradição dentro de letras de samba cujo motivo é, justamente, definir o próprio samba. Nisso o samba pode se configurar até como uma prática discursiva, aproximando-se portanto das ciências humanas que precisam definir-se pois não têm um objeto “concreto”, “real” e “material” observável fora do discurso. Já se diz em Nó Na Madeira, de João Nogueira (que é uma canção autorretrato altamente metafórica, interessantíssima de se analisar), que “o samba é ciência”. Claro, isto evoca uma discussão eterna entre as “obviamente” diferentes em tudo arte e ciência, e ninguém parece reivindicar muito seriamente que “samba é ciência”, talvez, a não ser metaforicamente. Mas se tomarmos o conjunto de letras de samba, enquanto prática discursiva que, inclusive, cria ela própria e uma cultura do samba, isto é, cujos sentidos não são somente metáforas, mas também sentidos do real produzidos, então como é possível se estabelecer um limite, senão relativo, entre ciência e arte?

Mas vamos deixar de lado a minha pergunta, menos interessante, e voltar à pergunta em Samba A Dois. Existe essa tradição de se definir o samba na letra de samba. Meus conhecimentos limitados não me permitem reconhecer todas as letras existentes desde os primórdios do nada e do nunca, mas posso apontar algumas canções que conheço. Em Feitio De Oração, por exemplo, de Noel Rosa e Vadico, instaura-se o sentido de o samba ser o que se exprime da dor sentimental, da dor de amor, como arte poética ainda herdeira do Romantismo:

“batuque é um privilégio / ninguém aprende samba no colégio / sambar é chorar de alegria / é sorrir de nostalgia / dentro da melodia (...) O samba na realidade / não vem lá do morro / nem vem da cidade / quem suportar uma paixão / verá que o samba então / nasce do coração”.

Ainda nessa mesma canção, cujo título - Feitio De Oração - diz que o poeta canta o samba como se dissesse uma prece, tal sentido é de certa forma retomado em Samba Da Benção, de Vinícius de Moraes e Baden Powell: “é preciso um bocado de tristeza / se não não se faz um samba não” (...) fazer samba não é contar piada / quem faz samba assim não é de nada / o bom samba é uma forma de oração”

E a “forma de oração" do Samba Da Benção faz referência quase direta à ideia de prece proposta em Feitio de Oração, acima citada, mas mais diretamente ao trecho “... cantar com satisfação e harmonia / esta triste melodia / que é meu samba / em feitio de oração”. Essa ideia de ligação com o transcendente também percorre um bom punhado de sambas, como por exemplo “samba é tudo o que Deus abençoou” (Samba É Tudo, Celso Fonseca e Ronaldo Bastos); “o samba (...) é o grande poder transformador” (Desde Que O Samba É Samba, Caetano e Gil). E mais ou menos dentro dessa ideia de ligação com o transcendente, com o divino até, a composição Poder Da Criação, de João Nogueira, “teoriza” sobre a inspiração, sendo esta advinda de uma “força maior”:

“não, ninguém faz samba só porque prefere (...) não precisa se estar feliz nem aflito / nem se refugiar em lugar mais bonito / em busca da inspiração” (...) faz pensar... que existe uma força maior que nos guia (...) e o poeta se deixa levar por essa magia / e o verso vem vindo e vem vindo uma melodia / e o povo começa a cantar”.

Existem sambas que vão se autodefinir pela questão da conduta do sambista frente à "sociedade do espetáculo", como em Samba É Tudo, acima citada, mas mais especificamente no trecho “ser sambista é muito mais / do que ser notícia nos jornais (...) o bom samba é o que traz / na cadência a doce pulsação da vida / pra fazer um samba a mais / é preciso mais que pretensão”. Ou seja, se me é dado o direito de explicar, o bom sambista não vai buscar pela fama, mas pela essência, pela poesia intrínseca a tal “doce pulsação da vida”. Interessante que pulsação tem, pelo menos aqui, dois sentidos, o de pulso ao qual o ritmo segue, e a pulsação dos batimentos cardíacos, que é para algumas espécies animais sinônimo de vida (se tem pulsação é porque está vivo).

A forma como se toca o samba, ou melhor dizendo, os instrumentos escolhidos para se tocar um samba, também pode ser uma forma de definição. Nesse sentido é estericamente hilariante o diálogo que se estabelece entre Samba A Dois, lá do início do texto, e Argumento, de Paulinho da Viola. Samba A Dois é praticamente um samba tradicional, musicalmente falando. Mas a banda que a compôs toca a canção com guitarra distorcida, baixo e bateria, entre outros. Em Argumento o sambista diz “tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim (...) olha que a rapaziada está sentindo falta / de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim”. A ideia de "desafio" sugerida no segundo parágrafo e retomada somente agora, nesse diálogo entre as músicas que eu estou propondo, diz respeito mais a “quem se atreve a me dizer” como argumento, pois ao mesmo tempo que a pergunta questiona, também sugere que o desafiado, na verdade, não se atreve a dizer do que é feito o samba, porque autoridade não é. Mas cuidado: nada disso do que estou dizendo existe fora desse texto, porque a canção de Paulinho da Viola é bem anterior a do Los Hermanos, e uma não se refere a outra, pelo menos não intencionalmente, supomos. E Paulinho da Viola seguramente é autoridade no samba. Contudo, relacioná-las pela diálogo estabelecido na tradição produz tranquilamente este efeito de pergunta e resposta que se complementam.

Existe também a ideia de que o samba é uma missão a ser continuada como em Não Deixe O Samba Morrer (Edson Conceição e Aloísio da Costa), em que se diz - “antes de me despedir / deixo ao sambista mais novo / o meu pedido final / não deixe o samba morrer / não deixe o samba acabar / o morro foi feito de samba / de samba pra gente sambar (...) o meu anel de bamba / entrego a quem mereça usar”. E este verso “o morro foi feito de samba”, que coloca o que seria um adjunto adverbial de lugar (o samba foi feito no morro) no lugar de sujeito da passiva, ao propor essa inversão, está naturalmente dizendo alguma coisa. E dizer que o morro foi feito de samba significa dizer que a cultura do morro se construiu pelo samba, pelos discursos que o samba veicula sobretudo nas letras. Ou seja, é uma noção de cultura já bem avançada, diferente daquela em que o lugar é determinante da cultura e seus efeitos, mas pelo contrário, a cultura do morro são os próprios discursos do e sobre o morro, e o samba é o registro discursivo, desde que musical, da cultura do samba de morro.

Se quisermos retomar a pergunta inicial para, talvez, propor uma resposta, eu diria que uma parte das letras de samba é feita, justamente, desse diálogo com a tradição: o samba que se define a si mesmo, assim como o samba que se pergunta quem é - e se autoafirma. Também disto é feito o samba. E tenho dito!

Para brindar este texto deixo o link de vídeo do Youtube com uma gravação histórica dos Novos Baianos, cantando o samba-exaltação Brasil Pandeiro, de Assis Valente. Deixo também uma confissão – eu me entusiasmei escrevendo esse texto e depois me emocionei ouvindo esta música.


http://www.youtube.com/watch?v=ojeJ-DCMtls


Até a próxima!

Luis Felipe


Crédito da imagem: caricatura de Noel Rosa por Cristiano Teles: http://searrependimentomatasse.blogspot.com/search/label/caricas

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Amoroso ainda

Como o cifraamodaantiga é um blog em que se fala, entre outras coisas, de cifras propriamente ditas, um amigo e leitor do blog que foi ouvir a música da postagem anterior, O amoroso Bebeto Alves das milongas, no site oficial do Bebeto Alves, me pediu para publicar a cifra de Amoroso. Ele tem razão, não está em nenhum outro site de cifras, e eu nem pesquisei tanto assim. Então, a pedidos, publico-a logo abaixo. Quem quiser se aventurar a tocar pela minha cifra aqui precisa tomar o cuidado de acertar a troca de acordes de acordo com a música ouvindo-a, porque no editor de texto daqui do Blogger não sai bem certinho como a gente faz no bloco de notas (notepad) os acordes em cima das palavras, se me faço entender.

O crédito da imagem: El gaucho, uma tentativa com bico-de-pena, de Cristiano Teles, sem a autorização expressa do autor, mas acho que ele não vai se importar, contanto que eu faça a devida divulgação do blog http://searrependimentomatasse.blogspot.com. Quem entrar lá já dá uma passeada nos excelentes desenhos, caricaturas, quadrinho e tirinhas, entre outras coisas.



Amoroso

A7+ C#m7 D7+
Eu poderia falar de cavalos, de domas, galpões
D#º E7
de lidas vividas, de bravatas e causos
E7/9- A7+
Mas resolvi falar de amor...

A#º Bm7
O amor que existe em mim
E7/9- E7 C#m7
Que me alimenta e que me revigora
F#7/9- F#7 Bm7
Nas horas de um mate nos pelegos do catre
E7/9- E7 A7+
Enquanto a lua se põe e o boi rumina o capim

A#º Bm7 E7/9-
Ilumina-se o pátio, as orquídeas em flor
E7 C#m7
As casuarinas do rancho...
F#7/9- F#7
Os recantos da dor
Bm7 E7/9- E7 A7+
Quando a alma lá fora madura as amoras do teu desamor



P.S. O link direto para a imagem do El gaucho, na fonte, é http://searrependimentomatasse.blogspot.com/2010/03/el-gaucho.html#links