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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O poeta com cisco nos olhos

Quero voltar às milongas do Bebeto Alves, mas dessa vez para elogiar muito o poeta e compositor Mauro Moraes. Os dois discos de Bebeto Alves, o de 1998 – Mandando Lenha; e o de 1999 – Milongamento, são inteirinhos com composições de Mauro Moraes. O compositor é o mesmo e o intérprete é também o mesmo. Mas daí alguém vai perguntar afirmando – então Milongamento deve ser mesmo um “prolongamento” do disco anterior? Bom, aí eu já não te garanto. São, a rigor, muito diferentes. Mas qual a diferença?

A diferença é justamente aquela, muito sutil, mas extremamente evidente para os violonistas, e que talvez passe despercebida para um leigo nesses assuntos – o culto à “alma” do violão. Em outras palavras, en el Mandando Lenha la guitarra platina se queda por cuenta del monstro Lúcio Yanel. No Milongamento, o violão pampeano fica a cargo do aguerrido Marcello Caminha. Percebem a diferença? Por isso eu digo, é uma diferença de estilo que o violonista imprime à música, que é mais facilmente identificável por aficcionados do violão mesmo. Quem não entende a diferença assim, só por fazer referência aos guitarristas, pode ouvir os dois discos no site oficial do Bebeto Alves www.bebetoalves.com.br, clica no link rádio, e escuta nos dois discos, de 1998 e 1999, respectivamente, o violão de Lúcio Yanel e o de Marcello Caminha.

Enfim, como eu disse, e devo me fazer cumprir, essa postagem é para falar mais do poeta do que dos intérpretes. Falemos do poeta e da sua criação.

Parabéns a Mauro Moraes, em primeiro lugar, pela contemporaneidade dos temas, a sensibilidade da poesia e, o que é mais difícil, conseguir colocar-se como um autor autêntico de uma obra consistente – num mundo que está dominado pela fé do dogma regional, por um lado, e pelo vírus da varíola do consumismo da última moda, por outro. A obra, arrisco dizer, não se ajoelha inteiramente ao culto regional, pelo contrário, debate-a no interior das próprias letras. Ela é dotada de um hibridismo muito sutil, e que por isso pode ter sido a escolha de Bebeto Alves, que sabe ler a cultura. A obra de Mauro Moraes é uma afirmação de identidade regional, mas que faz sentido em um contexto ultra-regional, nacional, mundial, e por aí afora. É aquilo que chamamos de música que desafia as linhas imaginárias que são as fronteiras nos mapas. Porque o poeta deve ir além do senso-comum, mesmo o senso-comum científico.

Mesmo nas gravações de Bebeto Alves já há um certo hibridismo. Os violões, tanto o de Yanel como de Caminha são regionais, têm aquela aparência básica da música gaúcha que teve origem nos estilos ibéricos, que sofreram influência árabe e cigana; mas eles também se viram às vezes obrigados a ultrapassar isto, a ir na dissonância impressionista, na dissonância dos acordes de jazz lento e de bossa nova. Muitos diminutos, muitas sétimas e nonas. Sétimas aumentadas, também. Toda a música, toda a musicalidade pode estar aí, nos casamentos da tradição com a pós-modernidade, do oriente com o ocidente, e do nosso humilde pago com o Brasil e o mundo. Uma complexidade artística que leva um tempo para ser ser produzida, e o resto da vida para ser compreendida.

A canção que escolhi para dizer alguma coisa é Com Cisco Nos Olhos, do Mandando Lenha (1998). Linda canção, belíssima letra. Ironia, no bom sentido, para poucos mesmo. O que se quer dizer com “com cisco nos olhos”? Homem, não chora. Gaúcho, se é mais homem, chora menos ainda. Deixa-se surpreender com um cisco nos olhos. É bem diferente do que chorar. É bem diferente de simplesmente se dizer que chora. É outra maneira de dizer, é uma inscrição em uma outra cadeia de sentidos. É, pelo uso da metáfora, mais poético dizer assim. E por ser mais uma dessas letras de peão, tosco ao mesmo tempo que emotivo, já provoca um estranhamento temático, que é figura da obra poética e literária.

Nessa canção se explora a oposição entre felicidade e tristeza (redondinha para uma análise semiótica, talvez, mas que eu não vou fazer aqui). Mas quero chamar atenção para alguns versos especificamente. Quando se diz, por exemplo, “quando escuto as notícias da minha saudade”, esse verso evoca a frase corrente “quando escuto as notícias da cidade”, mas dizendo muito, muito mais. Tem aí uma aglutinação de sentidos, e o sentido de “saudade” fica mais complexo do que o sentido corrente na língua. É saudade com um sentido poético num determinado contexto; é saudade da cidade, mas não só da cidade, é saudade da terra, do amor que ficou; saudade que comprime o tempo e espaço fazendo o violão desafinar e a corda arrebentar. Depois, “é o pecado de haver endurecido o carinho / milongueando sozinho com o mate lavado”, este verso que evoca “resmungando sozinho com o mate lavado”. E o anterior, do “carinho endurecido” é o debate sutil com os sentidos estabelecidos, é justamente esse negócio de se olhar para o imaginário sobre o gaúcho, macho, tosco, insensível, e etc e propor outra coisa. Por isso eu digo que Mauro Moraes não simplesmente se ajoelha ao dogma do culto regional. Nem tampouco o critica. Ele faz, com isso tudo, sua arte, no sentido próprio de culto ao belo. Ou seja, ele parte desse imaginário, o que é ou o que deve ser o gaúcho, e faz uma discussão, mas em nível poético e metafórico. Se é verdade que o sofrimento é universal, que é o que de mais humano há e que nos torna mais humanos, também é válido dizer que se está “com cisco nos olhos” dentro dessa cultura. Importa é como se diz regionalmente o que pode caracterizar, em essência, toda a espécie humana; este deveria ser o conceito discursivo de cultura.

A última estrofe, sim, será a “sanção cognitiva”. Depois do verso “apesar dos pesares o que mais me machuca”, na penúltima estrofe, que é uma preparação, segue-se uma enumeração de versos começados por “é...” que vão ter como últimos e derradeiros versos aqueles em que se admite chorar no retorno da alegria vinda dos outros, ou do retorno dos outros que trazem consigo a alegria para o convívio: “é não ter vergonha de chorar quando se está feliz / com a alegria dos outros voltando pra si”.


Com cisco nos olhos


A                                                                                  E
Meu radinho de pilha toca de tudo, tudo o que eu acho bom
F#m
A lembrança de amigos nos discos
Bm                                                         E
O pago, enfim, tudo o que me faz feliz

A                                                        C#m
Ele é o culpado de todo esse amor
Bm                 (Bm/A)                   F#m (F#7)
Ele é o silêncio, meu convidado
D                   E           (E7)                   A           E
É o estado das coisas que a alma quer-se guardado

A
Não sei como um coração pleno em felicidade
E
Possa às vezes tornar-se um poço de tristeza
F#m
Quando escuto as notícias da minha saudade
Bm                                                        E
E o violão desafina, a corda arrebenta


A                                                          C#m
Apesar dos pesares o que mais me machuca
A                                                          C#m
É a distância de dentro que a gente retruca
D                                                          E
É o pecado de haver endurecido o carinho
Bm                   E           E7           A
Milongueando sozinho com o mate lavado

A                                                         C#m
É ficar em si mesmo proseando a toa
A                                                          C#m
Com a manada nos olhos da sua pessoa
D                                                          E
É não ter vergonha de chorar quando se está feliz
Bm/A                   E           E7           A
Com a alegria dos outros voltando pra si



Ah... escrever sobre essa música me deu até um negócio... Acho que me caiu um cisco nos olhos. Vou fechar a janela para interromper o minuano, e até a próxima.


Luis Felipe


P.S. O Mauro Moraes a que me refiro é o compositor gaúcho, não confundi-lo com seu xará, um político paranaense. Site oficial do artista: http://mauromoraes.com/


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Amoroso ainda

Como o cifraamodaantiga é um blog em que se fala, entre outras coisas, de cifras propriamente ditas, um amigo e leitor do blog que foi ouvir a música da postagem anterior, O amoroso Bebeto Alves das milongas, no site oficial do Bebeto Alves, me pediu para publicar a cifra de Amoroso. Ele tem razão, não está em nenhum outro site de cifras, e eu nem pesquisei tanto assim. Então, a pedidos, publico-a logo abaixo. Quem quiser se aventurar a tocar pela minha cifra aqui precisa tomar o cuidado de acertar a troca de acordes de acordo com a música ouvindo-a, porque no editor de texto daqui do Blogger não sai bem certinho como a gente faz no bloco de notas (notepad) os acordes em cima das palavras, se me faço entender.

O crédito da imagem: El gaucho, uma tentativa com bico-de-pena, de Cristiano Teles, sem a autorização expressa do autor, mas acho que ele não vai se importar, contanto que eu faça a devida divulgação do blog http://searrependimentomatasse.blogspot.com. Quem entrar lá já dá uma passeada nos excelentes desenhos, caricaturas, quadrinho e tirinhas, entre outras coisas.



Amoroso

A7+ C#m7 D7+
Eu poderia falar de cavalos, de domas, galpões
D#º E7
de lidas vividas, de bravatas e causos
E7/9- A7+
Mas resolvi falar de amor...

A#º Bm7
O amor que existe em mim
E7/9- E7 C#m7
Que me alimenta e que me revigora
F#7/9- F#7 Bm7
Nas horas de um mate nos pelegos do catre
E7/9- E7 A7+
Enquanto a lua se põe e o boi rumina o capim

A#º Bm7 E7/9-
Ilumina-se o pátio, as orquídeas em flor
E7 C#m7
As casuarinas do rancho...
F#7/9- F#7
Os recantos da dor
Bm7 E7/9- E7 A7+
Quando a alma lá fora madura as amoras do teu desamor



P.S. O link direto para a imagem do El gaucho, na fonte, é http://searrependimentomatasse.blogspot.com/2010/03/el-gaucho.html#links

domingo, 26 de setembro de 2010

O amoroso Bebeto Alves das milongas

Bebeto Alves, lembram? Eu jamais esqueço dele. Não porque ele compôs Pegadas, talvez um pouco mais porque ele compôs Mais Uma Canção. Mas eu não me esqueço desse grande artista da música porque ele tem alguns discos primorosos de milongas. Acho que ele não deve ser muito reverenciado no meio dos tradicionalistas. Talvez eles até o escutem, mas o que eu acho estranho nessa turma é um pouco isso de excluir da vitrola do CTG os músicos que talvez transgridam os contornos exatos, absolutos e seguros do que eles consideram música gaúcha (ou música tradicionalista, mais estritamente falando). Aliás, parece que existe, entre os “entendidos”, uma discussão enorme sobre as diferenças entre música nativista, que é diferente de música tradicionalista, e que se tem pavor de “tchê music”, porque é muito alegrinha e é de alguma forma inspirada no axé music da Bahia. Mas música gaúcha, cá entre nós, não é um termo que pode de modo algum se restringir à música tradicionalista que tem o selo – essa o MTG aprova!

Eu incluo, à revelia dos patrões e dos donos dos sentidos do que é ou não gaúcho, eu incluo sob o termo “música gaúcha” também a música urbana, o samba, o hip-hop, e tudo mais que é feito nos limites geográficos do Rio Grande do Sul, talvez Santa Catarina também. Digo isso porque toda música feita por gaúchos para gaúchos (não só, mas principalmente, talvez) é música gaúcha. A música gaúcha tem o gosto da diversidade da salada cultural que é o Brasil. Onde encaixaríamos os veneráveis roqueiros do Cascavelletes e do TNT, o melhor rock gaúcho de todos os tempos? E o Nei Lisboa, o Bebeto Alves, a Cidadão Quem, o Nenhum de Nós, a Ultramen, entre tantos, tantos, inúmeros outros que não cabe enumerar aqui, senão sob o rótulo de música gaúcha? Sempre se escuta e se fala - música gaúcha urbana, pop-rock gaúcho... Enfim, tudo isso é música gaúcha.

Mas comecei esse texto para falar de uma canção que o Bebeto Alves canta, fiz esse preâmbulo todo aí em cima e não cheguei no assunto. O Bebeto Alves tem uns discos de milongas lindíssimas, que não sei se os patrões aprovam (porque o cara passeia por outros estilos, como o rock gaúcho urbano, ou é cantor de rock e passeia pelas milongas, enfim, isso não vem ao caso, apesar de ter vindo). E eu abri essa postagem para falar de uma delas – Amoroso, do CD Milongamento, de 1999. Acompanham o cantor, nas 14 faixas de pura simplicidade da terra e extrema beleza compostas por Mauro Moraes, o excelente violonista Marcello Caminha e o Clóvis “Boca” Freire, mandando muito bem também, no rabecão. Aí embaixo está a transcrição que fiz da letra (da mão do próprio compositor pode estar diferente):


Amoroso


Eu poderia falar de cavalos, de domas, galpões

de lidas vividas, de bravatas e causos

Mas resolvi falar de amor...


O amor que existe em mim

Que me alimenta e que me revigora

Nas horas de um mate nos pelegos do catre

Enquanto a lua se põe e o boi rumina o capim


Ilumina-se o pátio, as orquídeas em flor

As casuarinas do rancho...

Os recantos da dor

Quando a alma lá fora madura as amoras do teu desamor


Não vou me alongar comentando muito essa letra. Só um rápido comentário, se me permitem: ela tem um lirismo, no sentido de coisa encantadoramente poética, ao mesmo tempo que o eu-lírico se assume um tosco, um peão acostumado aos cavalos, que de repente resolve falar de amor. E o resultado dessa poesia (ou peãosia, eu hein!) com a mágica da música... ouçam! O quanto antes, porque o mundo pode acabar logo. Como ouvir a partir daqui, se o rapaz que escreve não colocou um Youtube da música ou link para download? Eis, portanto, a dica: acessem o site oficial do artista, www.bebetoalves.com.br, cliquem no link RÁDIOS e procurem pelo disco Milongamento e pela faixa Amoroso. Claro, quem fizer isso não vai deixar de passear pelo site, pelas músicas, pela história do Bebeto Alves y otras milongas más. Salve Bebeto.

Até a próxima,

Luis Felipe