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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"Altos" Retratos


Autorretratos são obras recorrentes entre artistas de todas as materialidades, inclusive entre músicos. Os que fazem sua imagem distorcida, para bem ou para mal, são os melhores ou, melhor dizendo, a única possibilidade. Quem é capaz de descrever a realidade? A realidade aparente? A realidade objetiva? E o que é a realidade? Porque imagem de algo ou de alguém é sempre uma representação. E valer-se do culto ao belo – a arte - para dizer-se feio – o autorretrato - é o que há! A auto-imagem piorada pode ir por duas vias interpretativas: a irônica ou a realista estritamente denotativa, se é que isso é possível. Para dar um exemplo bem claro: Chico Buarque, em Até o Fim, embora talvez não tivesse a intenção da ironia, e nós conhecendo sua genialidade, seu sucesso e seus enfrentamentos, não conseguimos ver Até o Fim senão como ironia, como uma obra-prima da auto-ironia. Se o tal do anjo safado, o chato do querubim da tradição drummoniana, determinou que ele, o genial Chico, seria todo ruim, o que sobra pra nós?
Falando em autorretratos, ou melhor, em altos autorretratos, na medida em que estes podem estar, digamos “desregulados”, “desnivelados” da sua imagem verdadeira, se é que isso existe, convenhamos que o se dizente muito bonitinho ou ajeitado não serve pra nada, nem pra rirmos. Melhor é sempre quando nos deparamos com o autorretrato de um autor que contém algo como ironia, algo que nos ponha a dúvida. Somente aí pode residir algo de verdadeiro. Nada que é aparentemente bom demais é de verdade. Embora eu goste muito do Erasmo Carlos, “ vou dar uma festa, sou o dono da festa, pertenço aos dez ma-a-a-a-ais” não é bem o que a gente quer ver numa canção, um autorretrato cujo eu-lírico fique se gabando de seus cabelos até os seus sapatos. Quem precisa de autoafirmação assim que vá ver o psicanalista. Até porque a diferença entre o eu da canção, que é personagem-narrador, e o autor, pode ser enorme, então, por que fazer uma letra do tipo “se ninguém gava, Zeca gava”? Fica uma bosta. O autorretrato é a transposição na materalidade artística de algo em si mesmo, físico ou psicológico, que intimamente incomoda seu criador . O autorretrato serve para fazer sobressair os defeitos, e não qualidades. Nesse sentido, autorretrato e caricatura de si são coisas extremamente redundantes. Os outros que digam, se for o caso, que não coincidem criador e criatura, sendo esta a figura própria do criador na sua própria concepção.
Mas eu queria mesmo era falar de um compositor e poeta maldito, e que influenciou uns que queriam ser malditos. Tá certo, há muitos malditos, mas nenhum mais maldito que Sérgio Sampaio, indiscutivelmente. E na medida em que ele era maldito e produzia autorretratos, em composições “quase pessoais”, “quase autobiográficas”, fez parte de uma linhagem poética, a de Augusto dos Anjos: “sofro, desde a epigênese da infância / a influência má dos signos do zodíaco”. Falando em signos, uma curiosidade: os sonetos de Augusto dos Anjos foram publicados, tardiamente em relação a sua produção, há quase um século. A conhecida Born Under A Bad Sign, blues de Albert King, data de 1967, nos Estados Unidos. Não há referência nem influência, nesse caso, talvez uma coincidência separada por várias décadas, língua, cultura e materialidade artística. Talvez! O que há, de fato, em comum entre Albert King, Augusto dos Anjos, Sérgio Sampaio (e outros de que ainda vou comentar) são “ecos malditos”, que parece título de “filme de terror”, que é o título de uma composição de Sérgio Sampaio.
Mas para cumprir com o meu métier habitual, vou lançar a hipótese de uma referência. Conhece-se bem as influências musicais de Los Hermanos – desde o samba e a MPB, passando pelo ska, o harcore, o tudo-é-rock'n'roll, o reggae e até orquestra de pífaros. Não se fala muito, não necessariamente, nas “influências” que aparecem nas letras. Mas pode-se cogitar sobre as referências textuais.
Cara Estranho, que é, muito provavelmente, autorretrato de Marcelo Camello, e quer ele saiba disso ou não, paga os devidos tributos referenciais a mais de uma canção de Sérgio Sampaio. E olhem que isso é elogio pra caramba! Principalmente para um dos “feios, sujos e malvados” meninos dos Los Hermanos, que se inconformaram com o sucesso de Anna Júlia, que os fez “queridinhos” do Brasil, e por isso nunca mais fizeram a barba nem passaram mais a roupa quando iam se apresentar. Em algum ponto eles até conseguem ser “malditos”. Mas, lamento informar, parecem não ter a sina da desgraça. Se isso é bom ou ruim, não sei; é relativo. Sérgio Sampaio, por outro lado, viveu uma vida normal sendo meio louco, no bom e no mau sentido, e por conta disso passou até maus bocados, chegando em algum momento a situações de autodestruição em virtude do alcoolismo, e consequentemente de mendicância.
Uma diferença fundamental que existe entre Cara Estranho e alguns dos possíveis autorretratos de Sampaio, para começar, é que a composição de Camello é em terceira pessoa. Antes de isso ser um problema para análise, trata-se de uma estratégia na forma de dizer nem tão incomum, que é falar de si na terceira pessoa, como se ele mesmo se visse objetivamente de fora. Começa com os versos “olha só... que cara estranho que chegou / parece não achar lugar / no corpo em que deus lhe encarnou”, criando a imagem do sujeito desajeitado. Sérgio Sampaio, por outro lado, em Velho Bandido, por exemplo, diz tudo na primeira pessoa: “eu que só tenho essa cabeça grande / penso pouco, falo muito e sigo pra adiante”, e em Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, embora na primeira pessoa, usa como estratégia de dizer atribuir o ponto de vista a terceiros: “há quem diga (...) que eu fugi da briga / que eu caí do galho / que eu não vi saída / quando o pau quebrou”. E saindo do sujeito desajeitado, passando para essa referência à briga, o narrador de Cara Estranho vai dizer, ironicamente talvez, que o ele é o ingênuo ganhador: "será que ele vai perceber / que foge sempre do lugar / deixando o ódio se esconder (...) que ganha a briga sem suar / e ganha aplausos sem querer”.
É interessante que Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua virou marcha de carnaval, praticamente, só por causa da letra e do refrão, e que Cara Estranho não tem nada a ver com carnaval, é uma música pesada. Mas essa referência a carnaval vai aparecer irremediavelmente em outras composições de Marcelo Camello, com os Los Hermanos ou já em carreira solo. O “meu bloco” parece ecoar em O Bloco Do Eu Sozinho, título de CD dos Los Hermanos, e uma das faixas é Todo Carnaval Tem Seu Fim, que tem uma letra ótima, que mexe justamente, entre outras coisas, com a idéia de se repensar os grandes clichés (“toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco”) e as rimas óbvias (deixa eu brincar de ser feliz / deixa eu pintar o meu nariz”). E outra, Samba A Dois, também de Camello com os Los Hermanos: “o meu bloco tem sem ter e ainda assim / sambo bem a dois por mim / bambo e só, mas sambo sim / sambo por gostar de alguém”, que na sua indefinição e ambiguidade ("tem sem ter") tem algo dos versos da "marcha carnavalesca" de Sampaio: “eu, por mim, queria isso e aquilo / um quilo mais daquilo, um grilo menos disso / é disso que eu preciso ou não é nada disso / eu quero é todo mundo nesse carnaval”. E ainda Copacabana, da carreira solo de Marcelo Camello, é uma marcha carnavalesca em sentido estrito.
Outro aspecto a ser apontado em Cara Estranho, e isso é bem oposto a qualquer coisa feita por Sérgio Sampaio, é em relação a ser “poeta maldito”. Parece que Sampaio não fez esforço nenhum para sê-lo. E Camello, embora seja feio que é um raio, e que parece filho de Serge Gainsbourg com a Janis Joplin (e com o talento misturado dos dois, para sua sorte), admite seu lado de pretenso bom moço atingindo, assim, pela ironia presente na essência do autorretrato, parecer maldito. Mas ser feio não é garantia de ser maldito. Porque feio ele é mesmo, nem precisa dizer. E quem liga pra isso? As mulheres, talvez; porque os homens acham isso tudo engraçado. Eu acho. Mas voltando ao assunto, nos versos: “tem tudo sempre às suas mãos / mas leva a cruz um pouco além / talhando feito um artesão /a imagem de um rapaz de bem”, há uma referência clara à criação artística, que é cultural e nesse sentido se opõe ao que é natural. Então, se o sujeito precisa talhar feito um artesão a imagem de um rapaz de bem, deve ser porque na verdade ele não é isso, mas faz de tudo para convencer a si e aos outros de que é. Assim, ele se aproxima, pela sua obra, ao que era Sérgio Sampaio, pela vida que se vê em sua obra.
Mudando um pouco de assunto, para falar de estilos ou gêneros musicais, outra coisa em comum entre Sérgio Sampaio e Marcelo Camello é a mistura que fazem de rock e de samba, mas não ao modo tradicional do samba-rock da escola de Jorge Ben a Seu Jorge. Tanto Sampaio quanto Camello, em algum momento, vão fazer um samba mais tradicional, assim como farão um rock tradicional, como se fossem coisas separadas. E diferente do samba-rock que eu falei, nota-se neles uma “contaminação” de um gênero no outro mas de maneira obtusa, que é para dizer pouco, porque não sei como dizer bem. Mas explico; em Samba A Dois, por exemplo, que é uma canção, que aqui se entenda sem a maquiagem dos instrumentos, cuja composição é um samba tradicional, é tocado na versão dos Los Hermanos com guitarra meio distorcida, baixo e bateria, o que faz com que não se configure como um samba tradicional, que deveria ser tocada com violão, cavaquinho, pandeiro, etc.
De forma mais ou menos similar, Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, que foi hit num carnaval, também não é rigorosamente um samba, menos ainda que Até Outro Dia, dele mesmo, gravada pelo sambista João Nogueira praticamente sem alteração. Até Outro Dia, na gravação do próprio Sampaio tem os bordões de um choro, cujas frases melódicas foram mais ou menos adaptadas para bandolim, metais e piano na versão de Nogueira. Mas é um samba, indiscutivelmente. Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, muito pelo contrário, tem na introdução um solo de guitarra, além de um solo de saxofone em escala cigana a la Mutantes ou algo assim, fazendo aquela linha hippie evolutivo, ou progressivo alternativo. São, enfim, os ecos dos malditos nos seus autorretratos...

Links para as letras:

Velho Bandido:
Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua:
Até Outro Dia:

Cara Estranho:
Samba A dois:
Todo Carnaval Tem Seu Fim:


Até a próxima!

Luis Felipe

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Em tempos de mudança

Em tempos de mudança, os bons compositores vão fazer essa música. O blog, que predominantemente procura achar coincidências em músicas de diferentes compositores, que fazem a devida e não necessariamente assumida referência, também precisa se adaptar aos tempos de mudança. E isso significa não se fechar para a influência de fora. Não vivemos numa bolha. Quer dizer, eu acho que eu vivo e sou feliz assim. Mas sei que isso é mentira. A influência de fora é muito significativa e, felizmente, muitas vezes, é significativa no bom sentido.

Mas quem é o compositor de música popular (ou folk, para usar o termo na língua do próprio país de origem dele) mais ouvido, cultuado, às vezes polêmico, a quem se faz referência, de quem se faz versões, de quem se regrava sempre suas músicas? Uma dica, só uma dica – é dos Estados Unidos. Só há uma resposta possível: Bob Dylan.

Não exagero quando digo que há muitas referências, diretas ou indiretas, explícitas ou implícitas, assumidas ou dissimuladas, à obra de Bob Dylan. Eu não arriscaria dizer que ele é um dos compositores mais gravados do mundo, mas pode ser. Eu não poderia enumerar aqui tudo, mas posso citar alguns que gravaram alguma música sua: Jimmy Hendrix, The Rolling Stones, Johnny Cash, Nick Cave, Neil Young, Eric Clapton. Guns'n' Roses, George Harrison, Elvis Presley, só para falar dos mais conhecidos. Sim, a “lista” é grande (ver último link no final da postagem).

Entre os brasileiros, são até comuns versões de canções de Dylan, como Caetano Veloso (versão para It's All Over Now, Baby Blue), que ficou com o título em português de Negro Amor, já regravada por Gal Costa e Humberto Gessinger, que eu lembre, e Knockin' On Heaven's Door ("Batendo Na Porta do Céu") com Zé Ramalho e vários outros; ou gravações diretamente em inglês mesmo, como Jokerman, na voz do Caetano Veloso, de novo. Mas não é só a Caetano que Dylan cantou. Tom Zé e Zé Ramalho são, ou foram em alguma fase, compositores quase estritamente dylanianos, assim como era Raul Seixas, embora se dissesse discípulo de Elvis Presley. E ser dylaniano não é ser limitado, nem tampouco um imitador. Significa ter em alguma das suas composições uma canção cuja letra seja meio falada, e que seja uma grande letra, falando de assuntos sérios. Sempre uma grande letra, em termos de conteúdo, principalmente, mas também em tamanho, muitas vezes. O que é Avohai e Chão de Giz do Zé Ramalho, entre outras, senão composições que fazem referência quase explícita ao estilo de Dylan? E Metrô Linha 743 e Ouro de Tolo, de Raulzito? Mas tem muito mais, sempre, com certeza. Mas como eu sei menos que a metade, e o resto eu ignoro, fiquemos com esses exemplos acima.

No entanto, para forçar um pouco a barra, para variar, eu vou tentar mostrar a referência de Bob Dylan numa música onde isso pode passar despercebido. Também tem bastante disso. E não é por maldade que os compositores fazem isso. Pode ser uma influência, sei lá. Mas nesse terreno do psicológico não entraremos, e nem nos interessa. Interessa, sim, a referência - coisas que podem ser apontadas nas letras.

Pensado justamente nesse tema, o sugerido pelo título da postagem, “em tempos de mudança”, o conhecedor de Dylan certamente poderia me apontar mais de uma música. Mas certamente a principal seria nominalmente The Times They Are A-changin'. E a forçação de barra será encontrar a referência a essa música na canção Ninguém Faz Ideia, de Lenine. Diferentemente daquelas composições que têm o estilo meio falado de algumas composições de Dylan, Ninguém Faz Ideia é o estilo Lenine. Então não é pelo estilo que se faz a referência a Dylan, já descartando de primeira um aspecto, digamos, estético-musical. Onde está a referência, então? Ninguém faz ideia... (brincadeira)

Eu digo que está na letra, e não de uma forma clara. Lenine é um compositor muito inteligente, um dos poucos que tem capacidade de fazer referência em diversos níveis, possíveis ou até imagináveis, explicitamente e não. Cabe ressaltar que ele não necessariamente "fez" essa referência, pois isso pode ser encontrável à revelia do autor. Acontece quando uma coisa é publicada e a interpretação é de quem a faz. Mas vejamos, adiante, o porquê da possível referência nessa música de Lenine.

Para começar, o tema sobre a mudança. Enquanto Dylan precisava dizer, de forma direta, que “os tempos estão mudando”; Lenine procura ir um pouco além, dizendo que, além de os tempos estarem mudando, e nós e o mundo mudando com o tempo, ele sugere que "ninguém faz ideia" do que o futuro reserva. Ou seja, num caso é a mudança que se anuncia presente, no outro, configura-se a mudança na noção que se tinha de futuro, que é cada vez mais nebuloso, pois, se tudo pode ser no futuro, fica difícil imaginá-lo de uma forma só. Outra coisa interessante a se observar na duas letras, como uma coincidência referencial, é a enumeração de tipos sociais, estereótipos, profissionais, que os compositores listam. Dylan se dirige a escritores e críticos, senadores e deputados, mães e pais; e Lenine fala de muitos, muitos tipos, por exemplo, “malucos e donas de casa / vocês aí na porta do bar (...) os que fazem greve de fome (...) os líderes de última hora (...) os exilados, os executivos / os clones e os originais”.

Enquanto a canção de Dylan se inscreve sob o rótulo de canção de protesto, ao mesmo tempo que cria o gênero, convocando as personagens tradicionais da sociedade a perceber a mudança, a não se adiantar no julgamento dos demais, a ser mais acessíveis, a levar os jovens mais em consideração; a grande sacada de Lenine é amplificar a enumeração dos tipos tradicionais enumerados por Dylan. Ou seja, a interpretação para Ninguém Faz Ideia é de que a mudança de que talvez se fale reflete justamente nas identidades, nos papéis sociais. Assim, o compositor cria uma referência não-explícita a um hino da mudança social, The Times They Are A-changin', de Bob Dylan, mas com uma solução criativa de duas mãos – por um lado leva a questão da mudança para além do presente, que tudo muda tanto que acaba que a gente não faz ideia do que está por vir, e por outro, sintagmatiza seus tipos e papéis sociais ora na função de vocativo, ora na função de objeto. Melhor explicando, devido ao refrão ficar repetindo “ninguém faz ideia de quem vem lá”, os papéis desempenhados pelas pessoas nas duas primeiras estrofes os tipos podem ser vocativo (“vocês aí na porta do bar” é o exemplo mais evidente disso), e nas seguintes, quando vai literalmente enumerando tipos que, por mais absurdos que possam parecer, existem mesmo, como em “os tais que traficam bebês” e “o mito que se auto-destrói", faz-se a sugestão de que são justamente estes papéis sociais novos, bons ou ruins, que virão sempre a surpreender-nos. É bastante coisa para se pensar, né?

Como diria Tom Zé, “Bob Dica, diga, Jimy renda-se”, pois os tempos estão mudando, e ninguém faz ideia de quem vem lá.


Até a próxima.


Luis Felipe


Abaixo, link para as letras:

http://www.bobdylanlyrics.net/timchang.html

http://letras.terra.com.br/lenine/119265/

http://wapedia.mobi/en/List_of_artists_who_have_covered_Bob_Dylan_songs

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pernas

De novo eu volto com o tema da referência, seja ela proposital ou acidental. Eu, por minha conta e risco, acho que as referências nas composições de Vitor Ramil não são acidentais, não são mero acaso. Acho que são propositais, mas enfim, que ninguém se comprometa com isso. É só uma opinião mesmo, que talvez nem as análises sustentam.

Dessa vez acho que encontrei mais uma referência numa letra de Vitor Ramil, que sabe tudo de música. Se não for referência propriamente dita, então é uma coincidência. Mas uma coincidência muito interessante: o tema!

Pois, se o título dessa postagem começa com “pernas” e o leitor conhece as composições de Vitor Ramil, pergunto, em qual delas é mencionada a palavra pernas? Exato para quem disse Foi No Mês Que Vem. Hás dois versos; um em que ele não diz a palavra “pernas”, mas sugere numa descrição que evoca a clássica cena de Marilyn Monroe em O Pecado Mora ao Lado – “quando o vento fez do teu vestido um dom que Deus te deu” e em outro verso, desta vez mais explicitamente - “ digo aqui tô eu, que te amo e às tuas pernas quero bem”. Sim.

Não. Quer dizer, eu não estou escrevendo para falar da referência à cena do filme com a Marilyn, embora faça essa referência para desenvolver o argumento. A referência a que me refiro é uma composição de Sérgio Ricardo, aquele que musicou o filme de Glauber Rocha, Deus e o Diabo Na Terra do Sol. Qual o nome da composição de Sérgio Ricardo? Pernas!

Vamos, então, às coincidências:

As duas letras narram a situação de uma cantada, isto é, um homem que aborda uma mulher desconhecida e diz algum gracejo, para conhecê-la, e quem sabe o que mais (ele poderá tentar ou conseguir). E claro, há nessas narrações em tom poético a descrição de uma, chamemos, “dança de acasalamento” entre humanos. A fêmea exibe, ou não – e nesse caso apenas sugere – seus melhores atributos físicos. O macho se encanta, estufa o peito, eriça-se todo, rodeia a fêmea e finalmente a aborda. Uma diferença fundamental, e a graça das letras, é que numa das canções a coisa parece ser bem sucedida, e na outra não.

Nas duas canções a descrição ocorre a partir do ponto de vista do que faz a abordagem, o homem. Há referências muito claras em relação a aspectos visuais, isto é, o ponto de vista é, rigorosamente, o lugar de onde se vê. Em Foi No Mês Que Vem, diz-se, no primeiro verso, “vou te vi, ali deserta de qualquer alguém”, estabelecendo-se o ponto de vista. Em Pernas, há um jogo interessante; o início da abordagem é sinalizado por um sinal de trânsito: “sinal verde / atravessei pra lá do sol”; e a proibição da abordagem é sinalizada pelo sinal oposto, nos versos finais “luz vermelha no sinal do sol pra mim / perigoso atravessar pra lá do sol”; justamente depois que “uma buzina conversível / chamou para o conforto / as pernas lindas”.

Outra coisa que pode ser explorada na construção da letra de Pernas é a supressão de uns sujeitos, tanto gramaticais quanto, digamos, “humanos”. Isto é, há frases nominais, por um lado e, por outro, são os objetos da visualização do eu-lírico que efetivam as ações: as pernas levando a dona para passear, o bom senso a não permitir palavras, a buzina chamando as pernas para o conforto, etc.

Em Foi No Mês Que Vem, no entanto, não há sinal vermelho para a abordagem. Porém...

Existe a questão dos tempos verbais contraditórios, num jogo entre passado e futuro que, menos que “contraditório” em sentido estrito, tem uma intenção poética, talvez, de se criar o fato entre o porvir e o realizado, que não é um limbo temporal, mas o próprio presente inapreensível, que imediatamente escapa pois nem o "presente gramatical" é capaz de descrever este presente mítico e sempre fugaz, tendo em vista, por exemplo, que ao terminar de dizer “escrevo” já virou “escrevi”.

Uma coisa de que os compositores se serviram, coincidentemente, foi da questão da dissonância. Sérgio Ricardo, inclusive, nas primeiras frases musicais, dos primeiros versos, procura talvez provocar um efeito de buzina na melodia, com cada palavra cantada em sttacato e numa nota diferente, algo que se assemelharia às buzinas no trânsito congestionado. Claro, isso é interpretação. Eu jamais poderia dizer que houve intenção, porque isso não é acessível. E se perguntassem para o autor perderia a graça, desfazia-se o mito. Melhor deixar assim. Na canção de Vitor Ramil, a dissonância também é bastante explorada, nos acordes da harmonia e na própria melodia, com notas próximas e alguns cromatismos, inclusive. Aliás, há uma versão dessa música em que Ramil canta e ninguém menos que o Egberto Gismonti faz uns barulhos muito loucos no piano. Dissonância total. Ele faz uns arpejos, se eu consigo descrever em palavras, escalas ou acordes rápidos destacando nenhuma das notas da tríade, mas uma das notas dissonantes dos acordes. Acho que é isso.

Abaixo as letras, e mais abaixo ainda, link para as canções no Youtube, para quem não as conhece:



Pernas

Sinal verde atravessei pra lá do sol
Triste o sol e uma tristeza em mim
Porém... surgiu ao sol da tardinha um par de pernas lindas
Levando a dona delas o meu olhar atrás
O meu bom senso não quis me permitir palavras
Sem que um olhar se fizesse esperança
No sol da tarde inspirei-me pra dizer ternuras
Ao lado daquelas pernas para a dona delas
Porém uma buzina conversível
Chamou para o conforto as pernas lindas
E eu devolvi ao sol da tarde a inspiração
Luz vermelha no sinal do sol pra mim
Perigoso atravessar pra lá do sol



Foi No Mês Que Vem

Vou te vi
Ali deserta de qualquer alguém
Penso, logo irei
Que seja antes minha que de outrem
Quando o vento fez do teu vestido
Um dom que Deus te deu
Claro que eu rirei
Ao vendo o que outro alguém não viu

Vou andei
E me chegando assim te cercarei
Digo, aqui tô eu
Que te amo e às tuas pernas quero bem
Já que estamos nós
Te sugeri-me então o que fazer
Claro que eu beijei
Ao tendo o que outro alguém não quis

E tudo isso
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Foi na hora em que eu te vi
E mais que tudo
Foi no mês que vem
Foi quando eu chegar
Na hora em que eu te quis

Vou fiquei
No teu chegado e tu chegada ao meu
Penso, grande é Deus
Um paraíso prum sujeito ateu
E pensando assim
Farei aquilo que o teu gosto quis
Claro, eu já ganhei de volta
Tudo o que eu quiser


Foi No Mês Que Vem:

http://www.youtube.com/watch?v=04dys23psfE&feature=player_embedded

Pernas:

http://www.youtube.com/watch?v=VHqlU1G67ik&feature=player_embedded#!


Até a próxima!

Luis Felipe